quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O Acesso à Informação Conduz à Inclusão Social no Contexto Hospitalar

Marlene da Silva.Soares. Profª da Universidade de Brasília/DF, Brasil. Mestre em Planejamento da Educação e Doutora em Educação pela UFRGS.
Membro da ONG Rede Especial Brasil .(mar.soares@terra.com.br)


O acesso à informação conduz à inclusão social no contexto hospitalar.

The access to information leads to social inclusion in a hospital environment


Resumo

O presente artigo focaliza a utilização das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), como ferramentas potencializadoras de habilidades para favorecer a inclusão digital e social das crianças e adolescentes hospitalizados.
Embora existam outras possibilidades na área da interação/comunicação/inclusão, os ambientes virtuais podem aliar-se como um recurso fundamental. Daí porque, os sujeitos hospitalizados podem manter contatos com pessoas que estão fora do hospital, transpondo as barreiras físicas impostas pelo mesmo. Entendemos que através das interações digitais ocorrerá a inclusão social.

Palavras-chave: inclusão digital e social, crianças hospitalizadas, educação e saúde.

Abstract

This article is about the use of Information and Communication Technologies (ICTs) as powerful tools to favour the digital and social inclusion of hospitalized children and teenagers. Despite the existence of other possibilities in the field of interaction/communication/inclusion, virtual environments have the potential to become an essential resource. They enable hospitalized subjects to keep contact with their peers outside the hospital environment, overcoming the physical barriers imposed by their forced seclusion. We understand that the social inclusion is a consequence of the digital interactions.

Key-words: digital and social inclusion, hospitalized children, education and health.


Introdução.

Promover a utilização massiva dos recursos das Tecnologias da Informação e Comunicação ( TICs ), como mecanismo de desenvolvimento social é redesenhar o futuro do país, apropriando-se destas ferramentas como instrumentos potencialzadores de habilidades para favorecer a inclusão digital e social.
Estar incluído na sociedade é condição vital para o desenvolvimento de qualquer cidadão. Cabe às várias esferas de governo, também ao poder local, dar a oportunidade de incluir a população nos benefícios do mundo em rede, uma vez que, promover a cidadania digital é consolidar os direitos do cidadão favorecendo sua inclusão social.
O acesso as tecnologias da informação e comunicação (TICs), conduzem a processos de inclusão digital as quais através desses recursos propiciam a interação com o outro e a inclusão social.

Os sujeitos hospitalizados não deverão ficar na contra mão desse processo. Nessa direção: Santarosa (2001) afirma que: “embora existam outras possibilidades, na área da interação/comunicação/inclusão, os ambientes virtuais podem constituírem-se para essas pessoas um recurso fundamental, como “janelas para o mundo”.

Com a interação digital a inclusão social será uma conseqüência, pois os sujeitos terão melhores condições de superar as limitações da doença, e das dificuldades dela decorrentes, assim como, do isolamento que o hospital impõem.
Desenvolvimento
Entendemos que o combate à exclusão digital só será possível em caráter de política pública, pois a desigualdade tecnológica, a falta de acesso à informação e a pouca infra-estrutura disponível para o desenvolvimento solidário do conhecimento, são fatores que colaboram para a marginalidade de considerável parcela da sociedade.
No cenário hospitalar, onde os protagonistas são os pacientes internados, existe a possibilidade de, através das TICs, ter acesso às ferramentas de interação e de comunicação com o mundo, oportunizando a troca, o intercâmbio, a criação e a produção da escrita colaborativa onde o diálogo se faz presente, criando um ambiente de compartilhamento e de interação.

Esta superação para os sujeitos hospitalizados pode se dar através do uso das TICs, pois os mesmos não têm condições de circular livremente por todos os ambientes. Essa restrição, dificulta sobremaneira a inclusão social. Logo, é necessário oportunizar diferentes alternativas de convívio e de construção de relações sociais.
Nesse sentido, as Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s), tornam-se aliadas ao processo de inclusão social dos sujeitos hospitalizados. Estes, podem manter contatos com pessoas que estão fora do hospital, transpondo as barreiras físicas impostas pelo mesmo. Assim entende-se que através das interações digitais ocorrerá a inclusão social.
A inclusão digital e social é o que se pretende no projeto “ Estação Digital: uma Janela para o Mundo”. Este projeto teve como referencial uma pesquisa que culminou em tese de doutorado intitulada: “Ambientes Digitais Virtuais: Alternativa para uma Melhor Qualidade de Vida de Crianças Hospitalizadas. Essa pesquisa desenvolveu-se com crianças da oncologia no Hospital da Criança Santo Antonio,em Porto Alegre/RS.
Nessa direção, conforme ensina Vygotski, (1997), os sujeitos hospitalizados, precisam interagir com o meio social para aprender e se desenvolver, em todas dimensões do seu desenvolvimento, senão vejamos:
“[...] o desenvolvimento do sujeito humano se dá a partir das constantes interações com o meio social em que vive, já que as formas psicológicas mais sofisticadas emergem da vida social“. “Assim, o desenvolvimento do psiquismo humano é sempre mediado pelo outro (outras pessoas do grupo cultural), que indica, delimita e atribui significados à realidade (Rego. 1995, p.61)”.

O projeto “Estação Digital: uma janela para o mundo” tem como base delineadora, unir saúde com tecnologia, para garantir uma assistência mais qualificada ao cidadão, oportunizando interações que favoreçam o desempenho desses sujeitos, procurando torná-los autônomos na utilização de ferramentas computacionais que facilitem a construção de conhecimento, a cooperação/colaboração e principalmente as relações sociais.
Daí, terem sido disponibilizados para execução desse projeto, 17 computadores doados pela Empresa de Tecnologia da Informação e Comunicação ( PROCEMPA) a qual, vem realizando treinamento de recursos humanos voluntários na área da informática para atuarem como facilitadores no atendimento e acompanhamento da criança e do adolescente hospitalizado.
A Universidade de Brasília /Faculdade de Educação, numa cedência de colaboração técnica disponibilizou a professora Marlene Soares, que concluiu doutorado com a pesquisa que deu origem ao projeto em ação.
Essa disponibilização, objetivou uma parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul/ Núcleo de Pesquisa em Informática e Educação Especial (NIEE) visando assessorar o desenvolvimento desse trabalho junto ao Hospital da Criança Santo Antonio, agora com um projeto extensivo a toda a pediatria.
Assim, pretendeu-se com este projeto, criar uma alternativa de inclusão e de convívio social às crianças hospitalizadas através das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC’s), criando-se uma motivação a mais para essas lutarem pelo êxito do tratamento, numa alternativa de melhora, antecipação e resgate da vida social.
O reconhecimento de que a exclusão digital amplia a miséria e dificulta o desenvolvimento humano, deve permanecer presente, considerando-se que o mercado, de forma imediata, não irá incluir na era da informação grupos sociais menos privilegiados que não tenham tido acesso às TICs.
Assim, as atividades realizadas se revestem de ativa e intensa participação, evidenciando as expectativas positivas em ações desafiadoras que os pacientes hospitalizados conseguem realizar através das atividades virtuais.
Essas atividades oportunizam momentos de interação, de construção de conhecimentos e estímulo a segurança, a auto-estima, o bom humor, a alegria, entre outros aspectos sócio afetivos positivos, minimizando o sentimento de isolamento, de solidão e de exclusão que um ambiente adverso pode desencadear.
É através das interações digitais que as relações se fortalecerão e a inclusão social dos pacientes ocorrerá naturalmente. A inclusão digital e social é definitivamente o que se pretende neste projeto. Nesse contexto, os excluídos digitais situam-se à margem da sociedade em rede. Muitos têm chamado esse fenômeno, de analfabetismo digital.
Sem inclusão digital, como uma decisiva política pública, os programas de governo eletrônico acabariam privilegiando o atendimento das elites, ampliando as desigualdades sociais. Assim sendo, a velocidade da inclusão é decisiva para que a sociedade tenha recursos humanos preparados em número suficiente para participar do desenvolvimento de nosso país.
Estar incluído na sociedade é condição vital para o desenvolvimento de qualquer cidadão. Cabe darmos a oportunidade de incluir a população nos benefícios do mundo em rede, promovendo a cidadania digital e consolidando os direitos à cidadania
Entende-se que um processo de capacitação digital, busca evitar que as tecnologias da informação aprofundem as desigualdades sócio-econômicas. É evidente que o primeiro passo da inclusão digital é assegurar o acesso ao computador, à Internet e às linguagens básicas da sociedade da informação.
A sociedade está em débito com as crianças e jovens hospitalizados. São seus direitos, saúde e educação ou serão tais direitos apanágios exclusivos de crianças e adolescentes sadios? Nesse viés, Santarosa, (2003), enfatiza que os ambientes digitais / virtuais estão concretizando a transformação do mundo numa aldeia global e mudando o próprio conceito de sociedade.
A mesma autora afirma ainda, que caminhamos para novos conceitos e valores em conotações que aparecem como países sem fronteiras, democratização da informação, socialização do conhecimento, pela comunicação e acesso a informação que vem se processando. Conclama ainda, que o uso do computador, devidamente orientado oportuniza o desenvolvimento e a organização do pensamento, trazendo vantagens à criança no seu processo de construção do conhecimento.
O acesso às TICs é sem dúvidas, um fator importante a ser considerado, para viabilizar a inclusão digital e social de crianças hospitalizadas, com necessidades educacionais especiais mesmo que temporárias.

O ato de ensinar e aprender, ganha novo suporte com o uso de diferentes tipos de softwares educacionais, de pesquisas na internet e outras formas de trabalho pedagógicos com o computador, criando uma nova dinâmica no processo de construção do conhecimento.

É um direito inalienável à toda a criança hospitalizada usufruir das TICs. A mesma, não deverá ficar excluída. É uma questão de cidadania a disponibilização desses recursos durante o período de sua permanência no hospital. Não há que se permitir, que a mesma deixe de vivenciar essa possibilidade, mesmo que temporariamente.

Entendemos que a criança hospitalizada fragmenta seu processo de aprendizagem e desenvolvimento, visto ficar desconectada da escola e todos os seus meios de interação, principalmente de todos os seus segmentos, do contexto familiar, amigos, brinquedos, hábitos diários, etc.

Caso tal fato aconteça, sua rotina ficará alterada. Face a exclusão temporária, esse contexto diferenciado de vida, ainda que temporária, poderá deixar seqüelas e apresentar rupturas ou perdas definitivas nas habilidades da vida diária, entregando-se a um viver passivo e dependente.

Dispor de um atendimento integral à criança hospitalizada mesmo que por curto espaço de tempo, pode ter repercussões importantíssimas, uma vez que ela pode atualizar suas necessidades, desvinculando-se, mesmo que momentaneamente, das restrições que o tratamento hospitalar lhe impõe. Ceccim, et al..1997, afirma que a educação está presente em todos os momentos de nossas vidas, até mesmo naqueles mais tensos e difíceis.


Ainda, em 2001, o mesmo autor apontou com muita propriedade: “Se a complexidade da saúde ou da doença não for levada em consideração, teremos uma {...} prática hospitalar que se mostra tecnificada e impessoal, orientada pela doença e pelos quadros clínicos, não se mostrando como uma prática humanizada e personalizada, orientada pela saúde e pela produção de vida. Afirma ainda o mesmo autor, que saúde e doença não são conceitos definitivos, nem tão pouco conceitos em oposição, mas ambos dizem respeito, à sobrevivência , a qualidade de vida ou a própria produção de vida.”

Ainda na mesma direção e sentido, retira-se os ensinamentos: “Os espaços e tempos da aprendizagem para crianças ou adolescentes hospitalizados, seguem regularidade e intensidade diferentes da escola comum, atendendo além das demandas intelectuais, as necessidades de pertencimento a uma comunidade afetiva e de inclusão sócio interativa”. (Ceccim; Fonseca, 1999).

Nesse viés, as universidades públicas e privadas, organizações não governamentais (ONGs) estão trabalhando em um desafio permanente para inclusão desse novo potencial de dispositivos que poderá dar uma nova roupagem à Educação.

“Quando as crianças aprendem a usar o computador, elas não estão apenas aprendendo a técnica , e sim mudando suas próprias relações com o mundo ao seu redor. A maneira como as informações são acessadas e apresentadas, os modos pelos quais podem ser manipuladas, todos alteram as percepções que a criança tem, a respeito do saber e do fazer”. ( Armstrong: Casement, 2001, p. 22).

Conclusões.
Acreditamos possuir elementos para sinalizar a necessidade de colocar as TICs ao alcance das crianças hospitalizadas. É uma questão de cidadania disponibilizar recursos computacionais a essas crianças durante o período que permanecerem internadas, não permitindo que vivenciem a exclusão digital e social, mesmo que temporária.

Há necessidade de maior fluxo de trabalhos e pesquisas que focalizem resultados, para a construção de uma massa cientifica de maior consistência, pois disponibilizamos ainda de referencial teórico muito escasso.

Não podemos mais nos omitir esperando que organizações governamentais tracem diretrizes para assegurar a essa parcela da população o cumprimento de uma legislação já existente.

Não há mais dúvidas quanto a necessidade de um atendimento que abarque a criança e o adolescente como um todo, entretanto apenas essa constatação não assegura a realização de um atendimento que objetive essa integralidade.

Consideramos ser esta uma tarefa urgente e necessária. A criança doente tem pressa...

Profª. Drª. Marlene da Silva Soares
E – mail: mar.soares@terra.com.br




Referencias
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MATOS,E.L.M; MUGIATTI, M.M.T. PEDAGOGIA HOSPITALAR: a Humanização Integrando Educação e Saúde, Editora Vozes, Petrópolis, 2006.

SANTAROSA,L.M.C. NOVOS DESAFIOS PARA EDUCAÇÃO NA CRIAÇÃO DE AMBIENTES DE APRENDIZAGEM TELEMÁTICOS, Anais da I Conferência Internacional de Tecnologias da Informação e da Comunicação, Challenges99, Portugal, Braga, 1999,p.74-75.

___________________ AMBIENTES DE APRENDIZAGEM VIRTUAIS: Inclusão social de portadores de necessidades especiais. Porto Alegre, UFRGS, 2002

VALENTE, José Armando INFORMÁTICA NA EDUCAÇÃO: Uma questão técnica ou pedagógica.. Revista Pátio, ano 3, nº9 ( maio/julho 1999) p.21- 23.

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