UNIVERSIDADE DE BRASILIA / DISTRITO FEDERAL
COMPLEXO HOSPITALAR SANTA CASA DE MISERICORDIA
PROJETO
Ambientes Virtuais na Saúde: a inclusão digital de idosos hospitalizados

PARCERIAS
Dr. Carlos Alexandre Netto
Reitor
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Dr. João Edgar Schmidt
Pró-Reitor do Pró-Reitoria de Pesquisa
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Profª. Sandra de Fátima Batista de Deus
Pró-Reitor do Pró-Reitoria de Extensão
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Dr. Johannes Doll
Diretor da Faculdade de Educação
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Dr. Raimundo Helvécio Almeida Aguiar
Chefe do Departamento de Estudos Especializados da Faculdade de Educação
Universidade Federal do Rio Gande do Sul
Dr. Carlos Alexandre Netto
Reitor
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Dr. João Edgar Schmidt
Pró-Reitor do Pró-Reitoria de Pesquisa
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Profª. Sandra de Fátima Batista de Deus
Pró-Reitor do Pró-Reitoria de Extensão
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Dr. Johannes Doll
Diretor da Faculdade de Educação
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Dr. Raimundo Helvécio Almeida Aguiar
Chefe do Departamento de Estudos Especializados da Faculdade de Educação
Universidade Federal do Rio Gande do Sul
UNIVERSIDADE DE BRASILIA / DF
Dr. José Geraldo de Souza Júnior
Reitor
Universidade de Brasília / DF
Dra. Denise Bomtempo Birche de Carvalho
Decana de Pesquisa e Pós-Graduação
Universidade de Brasília / DF
Dr. Wellington Almeida
Decano de Extensão
Universidade de Brasília / DF
Dra. Marlene Soares
Profa. da Faculdade de Educação
Universidades de Brasília/DF
Cedida para Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Educação, Departamento de Estudos Especializados.
Reitor
Universidade de Brasília / DF
Dra. Denise Bomtempo Birche de Carvalho
Decana de Pesquisa e Pós-Graduação
Universidade de Brasília / DF
Dr. Wellington Almeida
Decano de Extensão
Universidade de Brasília / DF
Dra. Marlene Soares
Profa. da Faculdade de Educação
Universidades de Brasília/DF
Cedida para Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Educação, Departamento de Estudos Especializados.
COMPLEXO HOSPITALAR DA SANTA CASA DE MISERICÓRDIA
Dra. Maria Beatriz Mostardeiro Targa
Diretora de Ensino e Pesquisa
Complexo Hospitalar da Santa Casa de Misericórdia
Gisele Mattos de Lima
Supervisora da Unidade de Ensino
Complexo Hospitalar da Santa Casa de Misericórdia
Lígia Petrucci Lübbe
Gerente Administrativa
Hospital Santa Clara
Eneida Bárbara Azevedo
Chefe da Enfermagem da Clínica Médica
Hospital Santa Clara
EQUIPE DE DESENVOLVIMENTO DO PROJETO
Dra. Marlene da Silva Soares
Coordenadora Executiva
Faculdade de Educação
Universidade de Brasília / DF
Gisele Mattos de Lima
Supervisora da Unidade de Ensino
Complexo Hospitalar da Santa Casa de Misericórdia
Comentário Estatuto do Idoso
O Brasil começa a envelhecer!Tido até a bem pouco tempo, como o país dos jovens, a estimativa do IBGE, é de que em 2020, o país terá uma população, com mais de 60 anos, de cerca de 30 milhões de pessoas.Isso tudo graças ao avanço da medicina, da tecnologia aplicada à recuperação da saúde e da melhoria da qualidade de vida do brasileiro.
Só faltava mesmo uma questão fundamental para a vida do nosso idoso: - respeito! E isso parece que o estatuto do idoso tenta resgatar.Veja só: foi preciso uma lei para que os idosos deixem de ser vítimas da negligência, discriminação, exploração e violência.
Ora, é preciso uma lei para respeitar as pessoas ?/ isso é uma questão de educação e de caráter: educação se ensina, caráter não !Respeito não depende só do governo, Depende também de cada um de nós, eu, você, meros cidadãos que, um dia também vamos envelhecer.
Até lá, tomara que tenhamos evoluído a ponto de não precisarmos mais de leis para garantir o respeito às pessoas.Afinal respeito é bom e todo mundo gosta, não é?
Leonardo Barros
1 INTRODUÇÃO
O Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003), traz regras de proteção a dignidade das pessoas com idade igual ou superior a 60 anos. O referido documento contém disposições sobre os direitos atribuídos aos idosos, dentre elas destaca-se o artigo 3º do Estatuto do Idoso "É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária, uma vez que apresenta a integralidade das ações estabelecidas".
Segundo o artigo 18 do referido documento(3),
As instituições de saúde devem atender aos critérios mínimos para o atendimento às necessidades do idoso, promovendo o treinamento e a capacitação dos profissionais, assim como orientação a cuidadores e familiares e grupos de auto-ajuda.
A capacitação do pessoal de saúde é imprescindível para o atendimento adequado ao idoso. Assim, torna-se necessário voltar a atenção na academia para a formação e capacitação de recursos humanos com vistas ao atendimento do fenômeno do envelhecimento (Gerontologia) e processo saúde-doença dos idosos (Geriatria).
Envelhecer, por muito tempo, significou viver excluído da sociedade e ser um peso para a família. Todavia, nos últimos anos, com o avanço da ciência e da medicina, esta etapa da vida passou a desenhar-se de maneira diferente.
A qualidade da vida passou a ser outra. Além do que, alguns mitos referentes ao envelhecimento vêm sendo modificados. O entendimento dos mais jovens a respeito dos velhos,vem paulatinamente sofrendo reformulações. Nessa direção, destaca Kachar (2001),
“O perfil do idoso do século XXI mudou. Ele deixou de ser uma pessoa que vive de lembranças do passado, recolhida em seu aposento, para uma pessoa ativa, capaz de produzir, participando em atividades nos segmentos sociais e políticos”.
Ainda na mesma linha, se posiciona Vergara, (1999):
Assim, como o corpo deve ser exercitado para prolongar a vida e a saúde, há alguns anos descobriu-se que a atividade mental pode modificar o comportamento acomodado que alguns idosos adotam ao envelhecer.
Em razão da longevidade e da visibilidade alcançada pelos idosos nos últimos anos, e graças aos esforços de organização profissionais sérias na área de atuação, as pesquisas, os estudos teóricos e empíricos do envelhecimento começaram a florescer no Brasil.
Nesse viés, atualmente existem diversas associações de profissionais que atendem à população idosa. Ainda na mesma direção, é grande e variada, a gama de cursos de pós-graduação em Gerontologia, trazendo um avanço maior na área de pesquisa, entretanto ainda são incipientes os resultados disponibilizados.
A Gerontologia, por ser uma área recente e de rápido crescimento, ao que se observa, tem apresentado uma necessidade crescente de direcionar sua produção acadêmica. Por outro lado, o caráter multidisciplinar contido na especialidade, tem dificultado sobremaneira, aglutinar parte relevante do conhecimento construído.
Daí porque, o entendimento de uma corrente científica apontando a falta de entrosamento e articulação entre os diferentes programas e projetos já desenvolvidos, tem dificultado pontuar, com maior clareza, as reais necessidades do melhor de atendimento ao idoso no contexto atual.
Assim, verifica-se que, aos poucos, a pesquisa sobre velhice vai abrangendo várias áreas do conhecimento e diferentes campos de interesse. Nota-se também que esse tema passa a abranger muitos domínios disciplinares, revelando uma diversidade de faces da velhice.
O número de estudos que têm incidido sobre o êxito do envelhecimento cognitivo ainda é bastante escassa. No entanto, existem algumas evidências sugerindo efeitos positivo das intervenções que visam promoção no funcionamento cognitivo em adultos mais velhos (por exemplo, Ball et al., 2002; Schaie, Willis, Hertzog, & Schulenberg, 1987; Valentijn et al., 2005). O que é ainda em grande parte inexplorada, porém, é a possibilidade de intervenções visando não apenas na promoção do nível funcional cognitivo em idosos, mas também centrando-se em um segundo domínio do envelhecimento bem sucedido: participação ativa com a vida. (SLEGERS, 2006, p. 11)
O estudo em questão visa promover qualidade de vida na terceira idade, tem em vista o idoso em situação de internação hospitalar, permitindo-a, por meio das TICs, participação ativa na vida.
Os conhecimentos disponibilizados em ambientes informatizados na web para as pessoas idosas poderiam auxiliá-las no combate a exclusão sofrida nessa fase, possibilitando-lhes, ao mesmo tempo, vivenciar o agora, sem desprezar as experiências e os sentimentos já vivenciados. (PASQUALOTTI, BARONI, DOLL, 2007, p.2)
Enquanto os idosos em geral encontram-se em situação de desvalorização social – processo denominado por Morin (1997) como degerontocratização[1], o idoso em internação hospitalar enfrenta distanciamentos sociais ainda mais agravados. A inclusão digital, que pode permitir maior participação e interação do idoso na sociedade e com as demais gerações (CASTELLS, 1999) é um processo do qual os idosos encontram-se duplamente excluídos: quer seja quanto ao acesso, quer seja quanto à apropriação (PASSERINO, BEZ, PASQUALLOTI, 2006). Promover a inclusão digital dos idosos em geral, e dos hospitalizados, em particular, é um processo que pode promover relações significativas com familiares e amigos, promovendo a auto-estima e a qualidade de vida.
O contexto do ambiente hospitalar parece ser inquestionável que se constitui um espaço traumático e hostil para o idoso, podendo afetar o seu processo terapêutico. Daí, a necessidade reduzir o impacto da hospitalização através de uma relação próxima e cúmplice com o idoso. Sabendo ouvir-lhe, sabendo falar-lhe e olhar, para saber atuar, numa interação que permita uma maior interatividade, oportunizando sempre que possível um atendimento global, que possibilite uma melhor qualidade de vida, mantendo-o em contato com o seu mundo de vivências. “A atuação de quem trabalha com idosos deve revelar procedimentos e atitudes construtivas, positivas, livres de preconceitos, que permitam o aluno idoso aprender a trilhar novos caminhos” (CAUDURO; CAUDURO, 2008, p. 101)
As tecnologias da Informação e Comunicação, através dos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA) vem constituindo-se uma poderosa alternativa para a interação/comunicação e desenvolvimento de vários segmentos de nossa sociedade, favorecendo a inclusão social de pessoas colocadas na marginalidade e excluídas da sociedade.
Além disso, a Inclusão Digital do idoso, perpassada pela utilização de ferramentas com poder de promoção da socialização e da interação (como é o caso dos AVAs) podem contribuir para a superação da redução dos espaços de interação e comunicação característica desta etapa da vida e potencializada no caso dos idosos hospitalizados. De acordo com Pasqualloti e Both (2008, p.27):
(...) o idoso tem seus espaços de comunicação e interação diminuídos em razão de uma série de questões individuais e pessoais, esntre as quais se destacam o sofrimento físico ou psicológico causado por uma moléstia, a crença, convicção ou opinião assumida com fé em relação aos valores morais e a personalidade manifestada no estilo de vida adotado pelo sujeito.
O paciente idoso no ambiente hospitalar, quando vivencia um período de exclusão temporária da família, amigos e dos seus hábitos e rotinas diárias, poderá através do uso das tecnologias minimizar o isolamento a que está submetido, interagindo com amigos virtuais, pesquisando na Web, escrevendo e recebendo e-mails, navegando por sites de seu interesse, enfim explorando as possibilidades que as ferramentas oferecem.
As TICs, portanto, no contexto dos idosos em geral e dos idosos hospitalizados, em particular, são um recurso de inclusão social, familiar e intergeracional. “A busca pelo conhecimento os faz [os idosos] sentirem-se incluídos tanto no convívio com a família quanto com a sociedade.” (PASSERNO; BEZ; PASQUALLOTI, 2006)
Nessa direção, oportunizar um espaço de inclusão social e melhor qualidade de vida mesmo em condições hostis é o que se pretende atingir utilizando os recursos das tecnologias da informação e comunicação através dos AVA.
Entende-se que o idoso hospitalizado deve receber um atendimento que lhe propicie bem estar numa abordagem de assistência humanizada
A oferta de situações de encorajamento poderão ser desencadeadas pelas TICs, o que espera-se, favorecer as dimensões sócio afetivas positivas, oportunizando-lhe melhor qualidade de vida.
[1] De acordo com Morin (1997) a sociedade iniciou o processo de degerontocratização em meados do século XX, processo caracterizado pela desvalorização daquilo que as gerações anteriores podem oferecer as gerações sucessoras, como sabedoria e experiência.
2 REFERENCIAIS PARA O PROJETO
Esse Projeto nasce da ampliação e extensão de um estudo já realizado com crianças da oncologia, atendidas pelo SUS, no Hospital da Criança Santo Antonio, no Complexo da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre no período de junho de 2005 à novembro de 2006, cujos resultados evidenciaram melhoria nos aspectos sócio-afetivos dos sujeitos pesquisados.
A pesquisa que produziu uma tese de doutorado e foi desenvolvida por Soares (2007) no Programa de Pós Graduação em Educação da UFRGS, na linha de pesquisa de Informática na Educação.
A partir dos resultados positivos encontrados com as crianças atendidas, se propõe estender a experiência.para atendimento aos idosos hospitalizados. Para tal, pretende iniciar com uma prática pedagógica inovadora, qual seja: iniciar com a formação de recursos humanos da saúde e educação, através de cursos de extensão, propondo com uso das tecnologias da informação e comunicação oportunizar melhor qualidade de vida aos idosos hospitalizados.
Assim, a presente iniciativa tem como objetivo a experimentação de um projeto piloto que venha a contemplar uma parcela considerável de sujeitos, da terceira idade, que sofrem com o desalento da solidão no contexto hospitalar.
Nesse viés, o projeto vem delineando uma nova maneira de integrar parceiros e desenvolver modelos inovadores no atendimento a esses sujeitos, tendo por objetivo, contribuir para combater a info-exclusão e a solidão, visando potencializar a integração deste grupo nas novas redes de conhecimento.
Nessa direção, o projeto em pauta, representa uma iniciativa de parceria e de cooperação entre o Complexo Hospitalar da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre/RS, a Universidade de Brasília, e o ‘Núcleo de Informática na Educação/UFRGS e as demais instituições que vierem a colaborar, tais como: O Ministério Público, o Ministério da Saúde, o Ministério da Educação e Cultura, Secretaria Estadual de Saúde, Prefeitura Municipal, Procempa e etc...
Com o projeto em desenvolvimento, abrem-se caminhos para a formação de recursos humanos que articulem os avanços científicos e tecnológicos às necessidades de oferecer a esses pacientes, uma melhor qualidade de vida, mesmo que seja por curto espaço de tempo.
Essa iniciativa tem sua justificativa alicerçada em múltiplos aspectos:
A hospitalização e o atendimento aos idosos têm sido discutidos por diferentes áreas do conhecimento, na busca de alternativas para oportunizar melhor qualidade de vida a essa parcela de sujeitos que já sofrem discriminação natural, por vezes da família e da sociedade.
Considerável parcela de indivíduos entende que só os jovens têm projetos de vida. Ainda na mesma direção, outros visualizam o velho como um sujeito a margem da sociedade. Ao contrário de tais estigmas, encontra-se a informática, estimulando a sociabilização do idoso. “Não substitui a presença humana, mas é um paliativo para a solidão". (Nanni, 2002).
As tecnologias da informação e comunicação, além de estimular a socialização do idoso, favorece também, o aprendizado da linguagem da informática ajudando a aproximá-lo do seu núcleo familiar uma vez que, para se comunicar com a sociedade informatizada o idoso precisará compreender sua linguagem. Nesse aspecto, enfatiza Kachar (2003, p. 60):
(...) as tecnologias possibilitarão ao indivíduo estar mais integrado em uma comunidade eletrônica ampla; colocando-o em contato com parentes e amigos, num ambiente de troca de idéias e informações, aprendendo junto e reduzindo o isolamento por meio da experiência comunitária.
Hoje, a terceira idade busca cada vez mais acesso aos recursos tecnológicos, principalmente a internet, como passatempo e como forma de manter contato com amigos e parentes. Nesse viés, em recente pesquisa realizada pela companhia de seguros britânica AXA, foi identificado que a Internet está em primeiro lugar nas preferências dos aposentados, inclusive à frente de outras atividades tais como, jardinagens e viagens.
O impacto vivenciado pelo idoso e seus familiares no contexto hospitalar, geram uma sobrecarga de medo, tensão, preocupações e incertezas, passando ambos a vivenciar um período de ansiedade constante que podem ocasionar dificuldades na terapêutica desses pacientes.
Se o atendimento ao idoso hospitalizado for realizado de maneira global as necessidades médicas, de enfermagem e psicológicas, dentre outras abordagens terapêuticas necessárias no ambiente hospitalar, certamente as dificuldades e adversidades serão minimizadas.
Com o avanço da ciência e conseqüente melhoria na saúde e expectativa de vida, os idosos estão se tornando mais ativos, necessitando com isso, ampliar seus horizontes culturais e de aprendizado, visando melhorar sua interação com as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC´s). Esta interação proporciona uma aprendizagem permanente, evitando o risco de estagnação e regressão do conhecimento.
Por outro lado, constatam-se que faltam definições sobre como deve ser realizado este atendimento global nos hospitais, e por quais profissionais. Com freqüência, esse atendimento ocorre por voluntários ou por profissionais não qualificados para esse trabalho, por vezes com formação ampla, mas não específicas às atividades em ambientes de assistência à saúde.
Nessa direção, observam-se lacunas no exercício da cidadania, visto que, em virtude de recorrentes ou extensas hospitalizações, o idoso pode ficar afastado do seu contexto familiar, e por vezes, com uma assistência deficitária dos familiares e amigos.
É próprio do contexto em que vivemos, a falta de tempo para disponibilizar atendimento amplo ao idoso.
O uso das tecnologias da informação e comunicação (TICs) poderá ser um dispositivo exemplar no sentido de manter o idoso participando de um processo dinâmico , e essa participação poderá trazer alento a solidão da permanência no hospital, e ao medo do ficar afastado dos familiares e amigos.
Se for oportunizado ao paciente durante o período de permanência no hospital, uma assistência adequada que busque contemplar o seu nível de desenvolvimento cognitivo, psicológico e social, utilizando um conjunto de recursos de proteção e cuidados, esse período poderá ser menos assustador, não remetendo-lhe apenas à situações de sofrimento, medo, tensão e dor.
Entende-se que a assistência ao idoso hospitalizado não deve ser restrita apenas a parte terapêutica, mas sim, proporcionar ao mesmo um atendimento como um todo, ou seja, levando em conta suas necessidades individuais, na busca de uma proteção contra os danos e prejuízos que o afastamento familiar pode lhe ocasionar, como, por exemplo, a depressão.
Os sintomas de depressão são mais comuns em adultos mais velhos que em adultos mais jovens. Muitas pessoas de mais idade sofrem de dores ou enfermidades crônicas, perderam o cônjuge, irmão, amigos, e, às vezes, os filhos, tomam remédios que alteram o humor e sentem que não tem comtrole sobre a sua vida. Qualquer uma dessas condições pode tornar a pessoa deprimida. Estima-se que a a % dos idosos que vivem na comunidade, e uma porcentagem muito maior daqueles em hospitais e clínicas de repouso, mostram sinais de depressão. (PAPALIA; OLDS, 2000, p. 510)
Daí porque, se deduz que a assistência pode ser também proposta através de dispositivos que oportunizem situações alegres, descontraídas e leves, bem ao agrado individual do idoso e de acordo com seus objetivos e interesses.
Cada sujeito irá propor o que deseja construir. O profissional da educação poderá utilizando o computador como dispositivo básico oportunizar atividades na forma de ludoterapia, que ofereça um conforto psico-afetivo, através das (TICs} buscando sempre oferecer situações que levem a uma melhor qualidade de vida.
Nem sempre os idosos atendidos terão retorno à família. Alguns terão no hospital a etapa final de sua vida. Não obstante, mesmo que seja por tempo limitado, as interações poderão propiciar-lhes alívio de suas tensões, medos e isolamentos. Nesse viés, conforme CECCIM & FONSECA, 1999, “entre as necessidades não afetas à terapêutica, as necessidades educativas especiais são as mais desatendidas”.
Não se obtém saúde somente lutando contra a doença, mas sim ampliando-se as prioridades [ . . . ] desenvolvendo programas de saúde e ensino que estimulem os profissionais da área a assumir uma visão mais real, social e coerente com as necessidades da população. (ANGERAMI–CAMON, 2001, p. 24)
Assim, busca-se oportunizar ferramentas tecnológicas ao idoso, através de ambientes virtuais, os quais poderão proporcionar conexão com seu contexto social, mantendo uma interatividade que minimize os aspectos de exclusão temporária durante sua permanência no âmbito hospitalar.
Segundo Ferreira (2004),
(...) o final do século XX e início do século XXI, vem sendo marcado por um desenvolvimento tecnológico, principalmente no que se refere a computação. Vivemos em um mundo de rápidas transformações, exigindo cada vez mais que o indivíduo possa acompanhá-las, sendo capaz de se comunicar, argumentar, agir, compreender, criticar e,adquirir um aprendizado contínuo”.
Nesse sentido os AVA tem um papel importante na educação quando o objetivo inclui a melhoria da qualidade de vida, propiciando o desenvolvimento da criatividade, atuação ativa e crítica, motivação, curiosidade e melhor auto estima.
De acordo com Godinho (1999),
(...) a utilização do computador e o acesso à Internet abrem a possibilidade aos pacientes hospitalizados se apropriarem de um conjunto imenso de fontes de informação, estabelecerem contatos e trocarem informações, exercerem uma atividade, encontrarem formas alternativas de lazer e de divertimento, aumentarem as suas relações de amizade, em suma, constituírem uma vida com significado”
Em conseqüência, esse trabalho, poderá oportunizar maiores ganhos no período de hospitalização, minimizando os prejuízos e perdas nos aspectos físicos, afetivos, cognitivos e sociais, e ainda, agilizando a trajetória de recuperação e retorno a família e às atividades sociais.
Utilizando o computador e trabalhando individualmente ou em grupo, com os dispositivos que o mesmo oferece, poder-se-á encontrar maior diversidade de alternativas na busca de uma melhor qualidade de vida dos pacientes hospitalizados.
Por que tantos idosos querem aprender a utilizar o computador? Alguns são simplesmente curiosos, ou precisam adquirir novas habilidades de trabalho ou se atualizar. Outros querem acompanhar as tecnologias mais recentes: comunicar-se com crianças e netos que usam computadores ou com adultos que estão na Internet. (PAPALIA; OLDS, 2000, p. 519)
Adultos idosos beneficiam-se na utilização das TICs, adultos idosos hospitalizados beneficiam-se mais ainda, na medida em que tais tecnologias podem lhes aproximar do mundo e das pessoas das quais estão temporariamente afastados.
A partir de um trabalho que propicie atividades ao idoso utilizando ferramentas /virtuais que integrem sujeito e objeto, numa abordagem interacionista, espera-se alcançar resultados positivos.
As Universidades e Organizações não governamentais – ONGs, Secretarias de Educação e Saúde, Estaduais e Municipais estão trabalhando em um desafio permanente para inclusão desse novo campo que os AVA oferecem. Os idosos não deverão ficar na contra mão dessa dinâmica de trabalho já oferecida em vários segmentos da sociedade.
2.1 Teoria Sócio Histórica
Inspirado nos princípios do materialismo dialético, Vygotsky considerou o desenvolvimento da estrutura humana como um processo de apropriação pelo homem da experiência sócio-histórica. Segundo o autor (1984),
(...) organismo e meio exercem influência recíproca, portanto o biológico e o social não estão dissociados e o homem constitui-se como tal através de suas interações sociais, portanto é visto como alguém que transforma e é transformado nas relações produzidas em uma determinada cultura.
Vigotsky procurou construir uma nova psicologia, com o objetivo de integrar, numa mesma perspectiva, o homem enquanto corpo e mente, enquanto ser biológico e social, enquanto membro da espécie humana e participante de um processo histórico (OLIVEIRA, M.K., 1997). Preocupou-se com o estudo da gênese, formação e evolução dos processos psíquicos superiores do ser humano.
O que ocorre não é o somatório entre fatores inatos e adquiridos e sim uma interação dialética que se dá desde o nascimento, entre o ser humano e o meio social e cultural que se insere. (REGO, 1997, p. 93)
Portanto: A atividade mental é exclusivamente humana. É o resultado da aprendizagem social, da interiorização de signos sociais e da interiorização da cultura e das relações sociais. “O desenvolvimento mental é, um processo sócio-genético” (BAIN,1983, BLANCK, 1977, apud MOLL, 1996, p. 43).
A essência do comportamento humano reside em sua mediação por instrumentos e símbolos. “Os instrumentos orientam-se para fora, em direção à transformação da realidade física e social. Os símbolos são orientados para dentro, em direção à auto regulação da própria conduta” (MOLL, 1996, p. 44).
O desenvolvimento humano é visto a partir de três aspectos: instrumental, cultural e histórico. E é Luria que nos ajuda a compreendê-los.
- Aspecto instrumental refere-se à natureza basicamente mediadora das funções psicológicas complexas. Não apenas responde aos estímulos apresentados no ambiente, mas os alteramos e usamos suas modificações como um instrumento de nosso comportamento.
- Aspecto cultural da teoria envolve os meios socialmente estruturados pelos quais a sociedade organiza os tipos de tarefa que a criança em crescimento enfrenta e os tipos de instrumentos tanto mentais como físicos, de que a criança dispõe para dominar aquelas tarefas. Um dos instrumentos básicos criados pela humanidade é a linguagem o que Vygotsky dá ênfase em toda sua obra, à linguagem e sua relação com o pensamento.
- O aspecto histórico, como afirma Luria, funde-se com o cultural, pois os instrumentos que o homem usa, para dominar seu ambiente e seu próprio comportamento, foram criados e modificados ao longo da história social da civilização. Os instrumentos culturais expandiram os poderes do homem e estruturaram seu pensamento, de maneira que, se não tivéssemos desenvolvido a linguagem escrita e a aritmética, não possuiríamos hoje a organização dos processos superiores que possuímos. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001, p. 107)
Para Vygotsky, a história da sociedade e o desenvolvimento do homem caminham juntos e estão de tal forma intrincados que um não seria o que é sem o outro, e foi nessa perspectiva que foi estudado o desenvolvimento humano.
Tentando sintetizar os aspectos centrais da Teoria Sócio–interacionista podemos ressaltar algumas teses básicas de grande complexidade.
Referem-se ao caráter histórico e social dos Processos Psicológicos Superiores (PPS) ao papel que os instrumentos de mediação protagonizam em sua execução e num plano metodológico, à necessidade de um enfoque genético em Psicologia. Essa nova abordagem para a Psicologia pode ser considerada como os ”pilares“ básicos do pensamento de Vygotsky.
Conforme Baquero, as teses centrais são:
A tese de que os Processos Psicológicos Superiores (PPS) têm uma origem histórica e social.
A tese de que os instrumentos de mediação (ferramentas e signos) cumprem um papel central na constituição de tais PPS.
A tese de que se devem abordar os PPS, segundo os processos de sua constituição, quer dizer, a partir de uma perspectiva genética. (BAQUERO, 2001, p. 25)
Os Processos Psicológicos Superiores (PPS), se originam na vida social, na participação do sujeito em atividades compartilhadas com outros. Ou seja, o desenvolvimento mental humano não é dado a priori, não é imutável e universal, não é passivo, nem tão pouco independente do desenvolvimento histórico e das formas sociais da vida humana.
A cultura é parte constitutiva da natureza humana e as características psicológicas se dão através da internalização dos modos historicamente determinados e culturalmente organizados de operar com informações.
O estudo dos processos psicológicos à luz da abordagem sócio histórica permitiu a definição de diversas linhas de pesquisa, tais como:
Estudo do desenvolvimento de uma criança, de um grupo cultural e da dissolução de processos psicológicos, uma vez que as doenças e traumatismos desfazem aquilo que a evolução e a experiência cultural ajudaram a construir. (REGO, 1997, p. 40).
Vygotsky se dedicou ao estudo das chamadas funções psicológicas superiores, que consistem no modo de funcionamento psicológico tipicamente humano, tais como a capacidade de planejamento, memória voluntária, imaginação, etc. Esses processos mentais são considerados superiores, porque referem-se a mecanismos intencionais, ações conscientemente controladas, processos voluntários que dão ao indivíduo a possibilidade de independência em relação às características do momento e espaço presente.
Estes processos não são inatos e se originam nas relações entre indivíduos humanos e se desenvolvem ao longo do processo de internalização de formas culturais de comportamento. “Diferem dos processos psicológicos elementares, como reações automáticas, ações reflexas e associações simples, que são de origem biológica” (REGO, 1997, p. 39).
Nessa direção, o desenvolvimento humano é concebido, como um processo culturalmente organizado. “A aprendizagem em contextos de ensino será um momento interno e necessário. Os Processos Psicológicos Superiores (PPS) são especificamente humanos enquanto histórica e socialmente constituídos” (BAQUERO, 2001, p. 26). É o resultado da aprendizagem social, da interiorização de signos sociais, interiorização da cultura e das relações sociais.
Para Vygotsky, as funções psicológicas emergem e se consolidam no plano da ação entre pessoas e tornam-se internalizadas, isto é, transformam-se para constituir o funcionamento interno que não pré existe, mas é constituído por este processo, fundado nas ações, nas interações sociais e na linguagem. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001)
Segundo a teoria defendida por Vigotsky o indivíduo se constitui não somente devido aos processos de maturação orgânica, mas principalmente através de suas interações sociais, a partir das trocas estabelecidas com seus semelhantes.
A interação social fornece a matéria-prima para o desenvolvimento psicológico do indivíduo. A cultura não é vista como algo pronto, um sistema estático ao qual o indivíduo se submete, mas como uma espécie de “palco de negociações” em que seus membros estão num constante movimento de recriação e re-interpretação de informações, conceitos e significados.
As funções psíquicas humanas estão intimamente vinculadas ao aprendizado, à apropriação do legado cultural de seu grupo. Esse patrimônio, material e simbólico, onsiste no conjunto de valores, conhecimentos, sistemas de representação, construtos materiais, técnicas, formas de pensar e de se comportar que a humanidade construiu ao longo de sua história. (REGO, 1997, p. 109)
Para que os sujeitos possam dominar esses conhecimentos é de fundamental importância à mediação do indivíduo, sobretudo dos mais experientes de seu grupo cultural e para que exista apropriação é preciso também que exista internalização, que implica na transformação dos processos externos em um processo intra-psicológico.
Nesta concepção, o desenvolvimento humano segue a direção do social para o individual. Construir conhecimentos implica numa ação partilhada, pois é através dos outros que as relações entre sujeito e objeto de conhecimento são estabelecidas.
A atividade espontânea e individual dp homem, apesar de importante, não é suficiente para apropriação dos conhecimentos acumulados pela humanidade. É importante a intervenção do adulto e as trocas realizadas que também contribuem para os desenvolvimentos individuais (OLIVEIRA, M.K., 1997).
A heterogeneidade passa a ser vista como fator imprescindível para as interações. Os diferentes ritmos, comportamentos, experiências, trajetórias pessoais, contextos familiares, valores e níveis de conhecimentos de cada sujeito imprimem a possibilidade de trocas de repertórios, de visão de mundo, de confrontos, ajuda mútua e conseqüente ampliação das capacidades individuais.
Há forte ligação entre o processo de desenvolvimento e a relação do indivíduo com seu ambiente sócio-cultural e com sua situação de organismo que não se desenvolve plenamente sem o suporte de outros indivíduos de sua espécie. (OLIVEIRA, M.K., 1997, p. 61)
Segundo Ratner (1995), um princípio fundamental da Psicologia defendida por Vygotsky é a transição dos processos inferiores a funções superiores. Os processos psico-biológicos inferiores incluem os reflexos e os processos conscientes espontâneas e rudimentares. As funções psicológicas conscientes superiores, incluem as funções mentais desenvolvidas e voluntárias, a percepção de categorias, a atenção e os movimentos voluntários.
Conforme Vygotsky (1988), todas as funções mentais superiores – FMS – são processos mediados e surgem de formas coletivas de conduta.
A interação entre o sujeito e o ambiente se dá através do uso de dois tipos de elementos mediadores, os instrumentos e os signos. O instrumento é um elemento interposto entre o trabalhador e o objeto de seu trabalho, ampliando as possibilidades de transformação da natureza. Ex.: o machado corta mais e melhor que a mão humana. O instrumento tem sempre claro um objetivo, carregando a função para o qual foi criado. É, pois, um objeto social e mediador da relação entre o indivíduo e o mundo.
(...) a função do instrumento é servir como um condutor da influência humana sobre o objeto da atividade; ele é orientado externamente, deve necessariamente levar a mudança nos objetos. Constitui um meio pelo qual a atividade humana externa é dirigida para o controle e domínio da natureza. (VYGOTSKY, 1984, p. 62)
Signos podem ser definidos como elementos que representam ou expressam outros objetos, eventos, situações. Ao longo de sua história, o homem tem utilizado signos como instrumentos psicológicos em diversas direções. È uma marca externa que auxilia o homem em tarefas que exigem memória ou atenção. Ex.: a utilização de varetas ou pedras para registro e controle da contagem de cabeças de gado.
São interpretáveis como representação da realidade e podem referir-se a elementos ausentes do espaço e do tempo presentes. “Constantemente recorremos à mediação de vários tipos de signos para melhorar nossas possibilidades de armazenamento de informações e de controle da ação psicológica [ . . . ]“ (OLIVEIRA, M.K., 1997, p. 30-31).
Os signos são elementos mediadores internos, meios auxiliares para solucionar um dado problema psicológico (ex..: lembrar, comparar, relatar, escolher, etc.) (VYGOTSKY, 1998).
Vygotsky nos remete à criação e ao uso de instrumentos e de signos externos como mediadores da atividade humana. É o grupo cultural onde o indivíduo se desenvolve que lhe fornece formas de perceber e organizar o real, as quais vão constituir os instrumentos psicológicos que fazem a mediação entre o indivíduo e o mundo. A dimensão sócio-cultural do desenvolvimento humano não se refere apenas a um amplo cenário, um pano de fundo onde se desenrola a vida individual.
Quando Vygotsky fala em cultura não está se reportando apenas a fatores como país onde o indivíduo vive, seu nível sócio-econômico, a profissão de seus pais, está falando sim, “do grupo cultural como fornecendo ao indivíduo um ambiente estruturado, onde todos os elementos são carregados de significado” (OLIVEIRA, M.K., 1997, p. 37).
A interação desempenha um papel fundamental na construção do ser humano. É através dessa relação interpessoal que o sujeito vai chegar a interiorizar as formas culturalmente estabelecidas de funcionamento psicológico.
O processo pelo qual o indivíduo internaliza a matéria prima fornecida pela cultura não é um processo de absorção passiva, mas de transformação, de síntese. É como se ao longo de seu desenvolvimento, o indivíduo assumisse as formas de comportamento fornecidas pela cultura, num processo em que as atividades externas e as funções inter-pessoais transformam-se em atividades internas, intra-psicológicas.
Muitos dos principais conceitos da psicologia Vigotskiana, como a mediação, a prática e a atividade, ou a natureza histórica dos processos psicológicos superiores foram adaptados de idéias previamente desenvolvidas por Marx e Engels.
Para Vygotsky,
(...) os determinantes da evolução psíquica do homem não são nem a maturação biológica, nem a adaptação biológica, nem a assimilação por parte dos homens das idéias do espírito universal, encarnadas nas criações da cultura, nem tão pouco as relações de cooperação social, mas o trabalho do homem com a ajuda de instrumentos. (LEONTIEV, 1992, apud BAQUERO, 2001, p. 35)
A essência do comportamento humano reside em sua mediação por instrumentos e símbolos. A relação do homem com o mundo não é uma relação direta, pois é mediada por meios, que se constituem nas “ferramentas auxiliares” da atividade humana. A capacidade de cria-las é exclusivamente da espécie humana.
(...) pressuposto da mediação é fundamental na perspectiva sócio-histórica, porque é através dos instrumentos e signos que os processos de funcionamento psicológico são fornecidos pela cultura. Vygotsky confere à linguagem um papel de destaque no processo de pensamentos. (REGO, 1997, p. 42-43).
As características do funcionamento psicológico tipicamente humano não são transmitidas por hereditariedade, nem são adquiridas passivamente pela pressão do ambiente externo. Elas são construídas ao longo da vida do indivíduo, através de um processo de interação do homem e seu meio físico e social, que possibilita a apropriação da cultura elaborada pelas gerações precedentes. Como afirmou Leontiev:
Cada indivíduo aprende a ser um homem. O que a natureza lhe dá quando nasce não lhe basta para viver em sociedade [ . . . ] ainda preciso adquirir o que foi alcançado no decurso do desenvolvimento histórico da sociedade humana. (LEONTIEV, 1978, apud BAQUERO, 2001, p. 35)
Vygotsky atribui enorme importância ao papel da interação social no desenvolvimento do ser humano, entende que o desenvolvimento do ser humano depende de um processo de maturação do organismo como um todo. Esta concepção se apóia na idéia de que “(...) a mente contém todos os estágios do futuro desenvolvimento intelectual: eles existem já na sua forma completa, esperando o momento adequado para emergir (...)” (VYGOTSKY, 1984, p. 26).
Smolka e Góes (1993, p. 37) afirmam que “(...) o que parece fundamental nessa interpretação da formação do sujeito é que o movimento de individualização se dá a partir das experiências propiciadas pela cultura.”.
Aquilo que é inato, não é suficiente para produzir o indivíduo humano, na ausência do ambiente social. As características individuais (modo de agir, de pensar, de sentir, valores, conhecimentos, visão do mundo, etc...) dependem da interação do ser humano com o meio físico e social. Para Vygotsky a maturação biológica é um fator secundário no desenvolvimento das formas complexas do comportamento humano, pois essas dependem da interação da criança, sua cultura e atribui especial importância ao fator humano presente no ambiente.
Para se humanizar o indivíduo precisa crescer num ambiente social e interagir com outras pessoas... Através das intervenções constantes dos adultos os processos psicológicos mais complexos começam a se formar.
Nessa ótica, no processo da constituição humana é possível distinguir:
(...) duas linhas qualitativamente diferentes de desenvolvimento, diferindo quanto a sua origem: de um lado, os processos elementares, que são de origem biológica; de outro, as funções psicológicas superiores de origem sócio-cultural. A história do comportamento da criança nasce do entrelaçamento dessas duas linhas. (VYGOTSKY, 1984, p. 52).
A interação que o indivíduo estabelece com o universo social em que se insere é fundamental para a formação do comportamento e do pensamento humano, que se dá a partir de constantes interações com o meio social em que vive, já que as formas psicológicas mais sofisticadas emergem da vida social. Assim, o desenvolvimento do psiquismo humano é sempre mediado pelo outro
.
Por intermédio dessas mediações os membros imaturos da espécie humana vão aos poucos se apropriando dos modos de funcionamento psicológico do comportamento e da cultura, enfim do patrimônio da história da humanidade e de seu grupo cultural.
Desse modo, a atividade que antes precisou ser mediada, passou a constituir-se um processo voluntário e independente.
Ao internalizar as experiências fornecidas pela cultura, a criança constrói individualmente os modos de ação realizados externamente e aprende a organizar os próprios processos mentais. O indivíduo deixa de se basear em signos externos e começa a se apoiar em recursos internalizados (imagens, representações mentais, conceitos, etc...). (REGO, 1997, p. 62)
O desenvolvimento humano é compreendido não como a decorrência de fatores isolados que amadurecem, nem tão pouco de fatores ambientais que agem sobre o organismo controlando seu comportamento, mas sim, através de trocas recíprocas, que se estabelecem durante toda a vida, entre indivíduo e meio, cada aspecto influindo sobre o outro.
As origens da vida consciente e do pensamento abstrato deveriam ser procuradas na interação do organismo com as condições de vida social e nas formas sócio-históricas de vida da espécie humana. Sendo, portanto, necessário analisar o reflexo do mundo exterior no mundo interior dos indivíduos a partir da interação destes com a realidade.
O referencial sócio-histórico enfatiza a construção do conhecimento como uma interação mediada por várias relações. Na troca com outros sujeitos e consigo próprio vão se internalizando os conhecimentos, papéis e funções sociais, o que permite a constituição de conhecimentos e da própria consciência.
Conforme Wertsch (1991, apud BAQUERO, 2001, p. 42), “[ . . . ] as pesquisas concretas desenvolvidas por Vygotsky e seus discípulos se centraram fundamentalmente nos aspectos inter-psicológicos que dão lugar à formação de processos mediados.”
Nesse direcionamento os aspectos históricos, sociais e institucionais, cumprem um papel decisivo no surgimento dos instrumentos de mediação e na promoção de cenários concretos para o desenvolvimento de atividades inter-psicológicas.
A relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas é uma relação mediada sendo os sistemas simbólicos os elementos intermediários entre o sujeito e o mundo. São os instrumentos técnicos e os sistemas de signos, construídos historicamente, que fazem a mediação dos seres humanos entre si e deles com o mundo.
A mediação é um processo essencial para tornar possíveis processos ou funções psicológicas tipicamente humanas, ou seja, voluntárias intencionais, controladas pelo próprio sujeito.
O pressuposto da mediação é fundamental na perspectiva sócio histórica, porque é através dos instrumentos e signos que os processos de funcionamento psicológico são fornecidos pela cultura.
Vygotsky confere à linguagem um papel de destaque no processo de pensamentos (REGO, 1997). A linguagem é um signo mediador por excelência, pois carrega em si os conceitos generalizados e elaborados pela cultura humana.
2.2 A afetividade no processo de aprendizagem
Pode-se comparar a afetividade a um óculos através do qual vê-se o mundo. São esses hipotéticos óculos que mostram nossas realidades maiores ou menores do que são, mais coloridas ou mais cinzentas, mais distorcidas ou fora de foco. (SOARES, 2007, p. 84)
A metodologia proposta terá embasamento teórico em Vygotsky que afirma: “é imprescindível não esquecer as conexões inerentes entre os aspectos intelectuais e afetivos.” As atividades deverão ser flexíveis de acordo com o nível de desenvolvimento de cada sujeito, e suas características particulares.
A teoria de Vygotsky interpreta o funcionamento psicológico humano observando aspectos não apenas cognitivos, mas também afetivos, uma vez que o autor concebe o homem como um ser que pensa, raciocina, deduz e abstrai, mas também como alguém que sente, se emociona, deseja, imagina e se sensibiliza (REGO, 1997).
Para entender o sujeito em sua totalidade e complexidade, faz-se necessária uma interpretação que não separe os aspectos que concernem ao seu funcionamento psicológico. Logo, cognição não existe apartada da afetividade, pois esses são aspectos que se complementam no desenvolvimento dos seres humanos.
De acordo com Oliveira (1992), Vygotsky definiu como “funções mentais” processos como pensamento, memória, percepção e atenção, categorizando-as como funções mentais elementares (atenção involuntária, por exemplo) e funções mentais superiores (atenção voluntária, memória, lógica...). Portanto, não é possível compreender tais funções isoladamente, de maneira que sua essência mesma é estarem inter-relacionadas.
Sendo assim, pode-se afirmar que, de acordo com a teoria de Vygotsky, o desenvolvimento das funções mentais como afeto e intelecto, como parte da consciência humana, apresenta relação de interfuncionalidade. Oliveira (1992, p.76) ressalta que “(...) os processos pelos quais o afeto e o intelecto se desenvolvem estão inteiramente enraizados em sua inter-relações e influências mútuas" (OLIVEIRA, 1992, p. 76).
Entende-se, portanto, que os aspectos cognitivo e afetivo não são dimensões passíveis de serem analisadas ou mesmo desenvolvidas isoladamente. “(...) o pensamento tem sua origem na esfera das motivações, a qual inclui inclinações, necessidades, interesses, impulsos, afeto e emoção” (OLIVEIRA, 1992, p. 76).
Nesse sentido, a inclusão digital dos idosos em situação de internação hospitalar, por meio da utilização de ambientes virtuais de aprendizagem, está embasada na teoria sócio-afetiva de Vygostsky, uma vez que a mesma permite o entendimento do sujeito em sua complexidade, considerando a inter-relação de suas dimensões afetivas e cognitivas.
Conforme Santarosa (2001, p.7) “o ambiente de aprendizagem computacional deve constituir-se, fundamentalmente, de um espaço aberto à construção do conhecimento, à construção cognitiva, sócio-afetiva, da comunicação, entre outros.”
Não apenas a utilização dos AVA, mas também a própria Internet permite o desenvolvimento de todas as dimensões do ser humano (SANTAROSA, 2001).
No projeto em questão, que prevê a interação entre idosos hospitalizados e o AVA, analisaremos os processos de interação e promoveremos novas atividades baseados nos aspectos da teoria de Vygotsky voltados para o desenvolvimento sócio-afetivo.
Dá embasamento ao trabalho, também, o estudo desenvolvido por Soares (2007), relacionado à utilização de Ambientes Virtuais de Aprendizagem com crianças em situação de internação hospitalar.
Embora o estudo de Soares (2007) seja relacionado, especificamente, a crianças em situação de internação hospitalar e o estudo em questão esteja voltado para idosos hospitalizados, pode-se evidenciar questões que, mesmo relacionadas a faixas etárias absolutamente distintas, referem-se ao contexto da enfermidade, e interferem emocionalmente em ambas as categorias de sujeitos.
De acordo com Ajuriaguerra (apud SOARES, 2007) o tipo de relação que a criança [e, para entendimento do estudo em questão, o idoso enfermo] estabelece com o meio dependerá de variadas situações relacionadas à enfermidade, como as características da doença e o entorno social (família, local de tratamento, etc).
De acordo com a autora, a afetividade ocupa importante papel nos processos de aprendizagem e desenvolvimento humano, e afirma que “Estudos mostraram que a emoção integra os processos de raciocínio e decisão, seja isso bom ou mau.” (SOARES, 2007, p. 81)
Como resultado deste estudo, foram categorizados aspectos sócio-afetivos relacionados à aprendizagem em três categorias: Condutas Gerais, Auto-Estima e Estados Involuntários.
Tais resultados relacionados à afetividade foram evidenciados em decorrência do estudo de Soares. A despeito da dificuldade na qual podemos esbarrar no que concerne a observar, avaliar e qualificar as emoções alheias, a autora evidencia:
Ninguém pode observar os sentimentos que um outro vivencia, mas alguns aspectos das emoções que originam estes sentimentos serão patentemente observáveis por outras pessoas. (Damásio apud SOARES, 2007, p. 82)
Os aspectos sócio-afetivos que se enquadram em cada uma das categorias definidas por Soares derivam de fenômenos corporais e mentais que geram uma atuação no mundo, sejam eles auto-controlados ou não.
Condutas Gerais
Motivação
Desmotivação
Iniciativa
Dependência
Bom Humor
Mau Humor
Aspectos da Auto-estima
Positiva Aparência
Negativa Aparência
Positiva Conhecimento
Negativa Conhecimento
Positiva Social
Negativa Social
Estados Involuntários
Euforia
Apatia
Desembaraço
Timidez
Disposição Física
Debilidade Física
Tabela 1 – Quadro dos aspectos sócio-afetivos segundo Soares (2007)
2.2.1 Aspectos das condutas gerais
Aspectos das condutas gerais são aqueles em que os sujeitos têm a possibilidade de conduzir sua atenção em maior ou menor grau, ainda que de forma restrita. São eles:
Motivação: pontuado quando o sujeito apresenta motivo espontâneo para o desempenho de uma atividade, utilização de dispositvos ou realização de um processo;
Desmotivação: pontuado quando o sujeito apresenta ausência de motivos espontâneos para o desempenho de uma atividade, utilização de dispositvos ou realização de um processo;
Iniciativa: o sujeito dispensa auxilio do facilitador e se autodetermina para atingir seus objetivos;
Dependência: o sujeito necessita de suporte do facilitador ou outrem, para atingir seus objetivos;
Bom Humor: Reação bem humorada e graciosa frente situações vivenciadas durante a interação;
Mau humor: Expressão de descontentamento, por meio de linguagem social ou corporal, frente situação apresentada;
2.2.2 Aspectos da auto-estima
[...] a avaliação que o indivíduo faz, e que habitualmete mantém, em relação a si mesmo, expressa uma atitude de aprovação ou desaprovação e indica o grau em que o indivíduo se considera capaz, importante e valioso. Em suma, a auto-estima é um juízo de valor que se expressa mediante as atitudes que o indivíduo mantém em face de si mesmo. É uma experiência subjetiva que o indivíduo expõe aos outros por relatos verbais e expressões públicas de comportamento. (COOPERSMITH, 1967, p. 4-5)
Auto-Estima (Aparência): identifica-se este aspecto com relação ao sujeito aceitar e gostar de sua imagem, expressando contentamento;
Baixa Auto-Estima (Aparência): relaciona-se ao descontentamento que o sujeito apresenta com relação à sua aparência, julgando-se feio ou pouco atraente;
Auto-Estima (Conhecimento): relaciona-se à confiança apresentada pelo sujeito com relação à sua capacidade e conhecimento no desempenho de determinada tarefa;
Baixa Auto-Estima (Conhecimento): expressa-se quendo o sujeito julga-se incapaz de desempenhar determinada tarefa, por entender que não tem conhecimento suficiente sobre o assunto em questão;
Auto-Estima (Social): quando o sujeito julga-se ao nível dos demais em um grupo, ou mesmo, quando julga-se superior;
Baixa Auto-Estima (Social): quando o sujeito julga-se inferior aos demais participantes de um grupo, e com isso, omite-se.
2.2.3 Aspectos dos Estados Involuntários
São caracterizados como aspectos dos estados Involuntários aqueles sobre os quais o sujeito não apresenta controle, não podendo suspender a aparição dos mesmos, ou ainda interferir nos mesmos.
Euforia: pode ser pontuada apenas quando os sujeitos expressam incredulidade, de acordo com a importância do evento, irrompendo em risos. Outras situações envolvendo a euforia apresentam-se muito subjetivas, dificultando assim sua pontuação;
Apatia: demonstração de falta de energia, de maneira que a debilidade não permite ao sujeito expressar-se;
Desembaraço: ausência de inibição, comentários feitos de temas (mesmo pessoais), com naturalidade;
Timidez: acanhamento ou retração corporal em interação com facilitadores ou demais sujeitos do grupo;
Disposição Física: demonstração de disposição e energia para desempenho das atividades, junto aos dispositivos tecnológicos;
Debilidade Física: demonstração de enfraquecimento, prostração ou desânimo.
2.3. A teoria Sócio Histórica aplicada à inclusão digital do idoso hospitalizado
O idoso hospitalizada deve receber um atendimento que propicie o seu bem estar numa abordagem de assistência humanizada, evitando os sentimentos de solidão, pela oferta de situações de encorajamento que poderão ser desencadeadas pelo uso das TICs.
Espera-se, favorecer as dimensões sócio afetivas, pois é pela aprendizagem, na relação com os outros que os conhecimentos são construídos e até que a interiorização ocorra, o sujeito deve ser acompanhado por um mediador.
As TICs podem ser consideradas dispositivos de fácil acesso e custo reduzido com possibilidades de oportunizar aos pacientes idosos hospitalizados momentos de alegria, satisfação, autonomia, melhor auto estima, enfim momentos lúdicos que poderão diminuir os aspectos negativos que possam estar vivenciando.
No contexto hospitalar a possibilidade de atividades cooperativas, a busca de amigos virtuais, as pesquisas na Web, os jogos, os e-mails, enfim, as possibilidades disponíveis no mundo virtual, poderão viabilizar momentos prazerosos mesmo na fase em que o idoso está no isolamento de um quarto…
Busca-se disponibilizar ambientes colaborativos num trabalho cooperativo, atendendo os interesses e condições individuais, contribuindo para estabilizar, modificar ou reequilibrar a construção do conhecimento e uma melhor qualidade de vida no período de internação hospitalar do idoso.
Segundo Santarosa (1987), o uso das TICs ajudam a melhorar a auto-estima, a aumentar a motivação e o interesse de aprender coisas novas. Valente, (1991), já pontua que o computador pode ajudar a desenvolver habilidades importantes e essas habilidades têm provocado um impacto muito grande na vida dos sujeitos, enriquecendo sua capacidade intelectual, seu sentido de auto-estima e colocando-os em contato com sua capacidade de aprender e de se desenvolver cognitiva e emocionalmente.
Além disso, o computador hoje tomou proporção de objeto de consumo, sendo considerado poderoso meio, e ser seu proprietário ou fazer uso dele, “(...) significa ter a sensação que a potencia do computador se transfira para nós e nos pertença” (PELUSO, 1998, p. 155). O mesmo acontece quando, “adquirimos um carro, uma moto: a aquisição desta ou daquela marca, guiado pelos nossos profundos desejos e pelos estereótipos sócio-culturais” (PELUSO, 1998, p. 155)
Ainda temos uma trajetória longa a percorrer na experimentação e implantação das TICs na assistência ao idoso no contexto hospitalar, entretanto. se sabe que pesquisas já apontam para ganhos nessa direção.
As atividades de lazer e entretenimento para o idoso hospitalizado constituem o principal instrumento de atenção à saúde social entendendo que qualidade de vida é viver bem no ambiente em que nos encontramos, nos adaptando e procurando ter hábitos saudáveis. Cada pessoa deve encontrar o que é qualidade de vida para si.
No mundo contemporâneo, as TICs e em especial o computador, têm evidenciado destaque como um dos mais promissores recursos para aproximar pessoas e desenvolver o potencial cognitivo dos seres humanos.
A partir do uso destes dispositivos, “uma nova visão de mundo” passou a ser oportunizada às sociedades: com as novas possibilidades de comunicação.
Hoje povos de diferentes culturas e níveis sócio-econômicos podem ampliar gigantescamente seus conhecimentos, até então cerceados por barreiras geográficas.
A Internet e todas as tecnologias correlatas romperam as barreiras culturais e sociais existentes difundindo uma nova proposta de conhecimento e percepção de mundo.
Os usos digitais permitem o acesso à informação atualizada, o acesso às pesquisas e aos conhecimentos produzidos por cientistas de qualquer parte do planeta, num espaço de tempo cada vez mais reduzido, e ainda permite estabelecer uma conversação/comunicação sincrônica (chat) com pessoas dispersas geograficamente.
A grandeza da informática não está na capacidade que ela tem de aumentar o poder centralizado nem na sua força para isolar as pessoas em torno da máquina. [ . . . ] A grandeza da informática encontra-se no imenso campo que abre à cooperação. É uma porta para a amizade, para a criação de atividades cooperativas, para a cumplicidade de críticas solidárias aos governos e os poderes opressores ou injustos. Enfim, as redes informatizadas propiciam a solidariedade e a criação e desenvolvimento de projetos em parcerias. (ALMEIDA; FONSECA JUNIOR, 2000, p. 43)
Segundo Struchiner, Ricciardi e outros (1998), o indivíduo é agente ativo de seu próprio conhecimento, ou seja, ele constrói significados e define suas próprias representações da realidade de acordo com suas experiências e vivências em diferentes contextos.
O surgimento de um novo sistema eletrônico de comunicação caracterizado pelo seu alcance global, integração de todos os meios de comunicação e interatividade potencial está mudando e mudará para sempre nossa cultura (...) está surgindo uma nova cultura: a cultura da virtualidade real. (CASTELLS, 1999, p. 355)
Pelo que as TICs representam e potencializam do ponto de vista da construção do conhecimento é recomendável que os ambientes hospitalares oportunizem aos idosos hospitalizados vivencias virtuais.
As TICs poderão contribuir de maneira diferenciada para oportunizar durante o período de hospitalização melhor qualidade de vida aos pacientes e sua inclusão em todos os segmentos do mundo atual.
Nesta ótica é fundamental reconhecer a individualidade dos pacientes em todos os seus aspectos. As nuances do quadro clínico, a ansiedade e a insegurança a tensão e o medo que a doença traz, as dificuldades econômicas e sociais do tratamento, a importância da presença constante da família e da coesão de toda a equipe do hospital. Esse contexto deve estar harmonizado numa sintonia em que o idoso sinta-se confortável.
Como, atualmente, o Ministério da Saúde preocupa-se na busca de um processo de humanização na assistência hospitalar acredita-se que a incorporação destas tecnologias poderão proporcionar benefícios.
Ainda temos uma trajetória longa a percorrer na experimentação e implantação de trabalhos similares.
Face ao exposto, o presente Projeto tem como objetivos:
3 OBJETIVOS
a) Oportunizar ao idoso hospitalizado interações em ambientes virtuais, buscando sua inclusão digital e social.
b) Acompanhar e avaliar o processo de interação/comunicação do idoso em ambientes virtuais de aprendizagem, observando os aspectos sócioafetivos e cognitivos evidenciados.
c) Verificar a relação entre o uso do computador e das ferramentas da Internet e a avaliação que o idoso faz de sua qualidade de vida e bem estar durante o período de hospitalização e participação no projeto;
4 METODOLOGIA
4.1 Caracterização do estudo
Expressamos que ela [a pesquisa qualitativa] é uma postura importante no campo da pesquisa educacional. (...) a pesquisa educacional nos países de Terceiro Mundo tem um objetivo maior: a de servir aos processos de transformação de essência da realidade social que experimentamos. (TRIVIÑOS, 1987, p. 14)
O projeto envolve um estudo caráter qualitativo, conforme metodologia de estudo de caso proposta por André e Lüdke (1986). Ainda de acordo com a pesquisa qualitativa, baseia-se também no materialismo dialético e histórico conforme metodologia de pesquisa descrita por Triviños (1987). Ambas as teorias complementam-se na realização da pesquisa.
Segundo André e Lüdke (1986), a pesquisa qualitativa apresenta cinco características essenciais: a) ambiente natural como fonte dos dados; b) dados coletados eminentemente descritivos; c) preocupação com o processo maior do que com o produto; d) pesquisador (es) como a principal elemento de coleta de dados; e, e) o significado que as pessoas dão às coisas como principal elemento de construção de saber para o(s) pesquisadores.
Ainda de acordo com André e Lüdke (1986), a pesquisa qualitativa supõe o contato direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação que está sendo investigada, via de regra através do trabalho intensivo de campo. Sendo assim, nesse tipo de pesquisa, os problemas devem ser estudados no ambiente em que eles ocorrem naturalmente, sem qualquer manipulação intencional do pesquisador.
Na perspectiva da pesquisa dialética (TRIVIÑOS, 1987), a etapa inicial da pesquisa caracteriza-se pela “contemplação viva do fenômeno” (p. 73), que permite o entendimento da qualidade geral do objeto e das hipóteses que nortearão o estudo. Posteriormente, passa-se à análise do fenômeno, estabelecendo as relações sócio-históricas do mesmo. Finalmente, o pesquisador procura estabelecer a realidade concreta do fenômeno estudado, por meio de estudo das informações, observações e experimentos realizados.
O estudo de caso, (LÜDKE e ANDRÉ, 1986: 18-21) apresenta as seguintes características: (a) enfatiza o contexto da pesquisa para a interpretação do fenômeno; (b) usa uma variedade de instrumentos para coletar os dados de modo de abranger o fenômeno de forma mais profunda; e (c) utiliza uma linguagem mais acessível do que outros relatórios de pesquisa.
Para realização de um estudo de caso, o processo caracteriza-se pelo desenvolvimento de três etapas ou fases: exploratória, delimitação do estudo e análise sistemática para elaboração do relatório.
Na fase exploratória, o estudo passa a ser delineado mais claramente, na medida em que o estudo passa a ser desenvolvido. Questões que podem existir inicialmente, por parte do pesquisador, passam a ser “explicitados, reformulados ou abandonados, na medida em que se mostrem mais ou menos relevantes na situação estudada” (LÜDKE e ANDRÉ, 1986, p. 21).
A fase de delimitação do estudo caracteriza-se pela coleta sistematizada de informações, por parte do pesquisador, com instrumentos variados determinados pelas características próprias do objeto de estudo.
A análise sistemática e a elaboração do relatório, como fase final do estudo de caso, caracterizam-se pela sistematização do material que o pesquisador começou a produzir deste a primeira etapa do estudo, como rascunhos, apontamentos, anotações, fotografias, gravações...
Vale ressaltar que as etapas ou fases descritas no processo do estudo de caso não são necessariamente lineares, mas complementares, cruzando-se em diferentes momentos da pesquisa e em diferentes ordens.
4.2 Sujeitos da pesquisa
A amostra de sujeitos que compõem este estudo é formada por idosos - pessoas com 60 anos de idade ou mais, de acordo com o primeiro artigo do Estatuto do Idoso, 2003 – em situação de internação hospitalar do Hospital Santa Clara, da Complexo Hospitalar Santa Casa de Misericórdia em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Em virtude da natureza do projeto, que visa oportunizar melhor qualidade de vida aos idosos hospitalizados, não será possível definir quais e quantos idosos serão atendidos pelo projeto durante a realização da pesquisa, diante de contingências como rotatividade de internações, alta hospitalar ou mesmo óbito.
4.3 Procedimentos
Os encontros com os sujeitos hospitalizados ocorrerão diariamente, na sede do hospital Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
O presente projeto prevê o desenvolvimento de um estudo piloto e, através do acompanhamento durante as interações dos sujeitos idosos hospitalizados, busca avaliar os resultados observados. Se os mesmos forem considerados satisfatórios e relevantes poderão servir de modelo para a ampliação desse atendimento à outros hospitais.
4.3.1 Da implantação do projeto
Sua implantação deverá ocorrer de forma gradual e continuada não devendo acontecer interrupções das atividades, a qual, caso sofra solução de continuidade, poderá gerar desconforto aos pacientes em atendimento.
Inicialmente, faremos uma sondagem por meio de um contato pessoal dos pesquisadores com os idosos hospitalizados no momento da atividade e aplicação de um instrumento de verificação de interesses, bem como dados relevantes da mostra como, idade, escolaridade, estado cível, número de filhos, etc (conforme anexo 1).
Tal atividade de sondagem justifica-se pois é preciso conhecer o universo do idoso, conhecer seus anseios, suas motivações, seus desejos, seus problemas, suas dificuldades, seu dia-a-dia, para que a tecnologia seja um meio para alcançar um objetivo maior. A aprendizagem será facilitada se os próprios idosos definirem os objetivos desejados. Pois os mesmos podem ter motivações diferentes que irão influenciar na definição de seus direcionamentos para aprender a utilizar as TIC’s.
4.3.2 Da coordenação do projeto
O projeto deverá ser coordenado por profissional credenciado. As atividades propostas terão a participação efetiva de pessoal habilitado, voluntários e acadêmicos com a supervisão sistemática de profissional qualificada para tal.
Estão previstas no cronograma reuniões mensais com os profissionais e acadêmicos envolvidos no projeto, para busca de soluções e direcionamento do projeto de acordo com as expectativas dos pacientes.
4.3.3 Da preparação e formação dos acadêmicos e voluntários envolvidos
Pretendemos promover a realização de, pelo menos, um curso de extensão para treinamento dos acadêmicos, voluntários e demais envolvidos no projeto, visto ser necessário que os facilitadores não só compreendam a importância desse instrumental, como também, desenvolvam competências fundamentais para sua utilização. Uma mesma informação poderá se apresentar sob diferentes enfoques, ampliando as possibilidades de aprendizagem para o idoso.
O mediador utilizando adequadamente os ambientes virtuais poderá transportar o idoso a um mundo fantástico. São sites de jogos, músicas, entretenimentos variados, correio eletrônico para o encaminhamento e recebimento de e-mails, navegação da internet, visitação de sites de seu interesse, pesquisa de assuntos de seu agrado, conversas no MSN, organização da sua página, sempre explorando as atividades possíveis.
Neste sentido, o curso de extensão visa não apenas instrumentalizar os acadêmicos e voluntários, mas oferecer um olhar sobre as potencialidades de ferramentas disponibilizadas pelo computador e pela internet na diminuição dos obstáculos enfrentados pelo idoso e na melhoria de sua qualidade de vida.
4.3.4 Da natureza das atividades desenvolvidas
Dentre as diferentes atividades trabalhadas com os idosos, de acordo com os interesses pessoais, todos vivenciarão novas aprendizagens que proporcionarão uma aproximação com o mundo fora do hospital, oportunizando melhor qualidade de vida e ainda, minimizando os aspectos sócio afetivos negativos e fortalecendo os positivos.
Os benefícios proporcionados pela aprendizagem da informática e pelo uso da internet são variados e extensos, senão vejamos:
· Disponibilidade de acesso a:
· cultura e educação (cursos virtuais, bibliotecas virtuais, publicações, jornais, revistas, etc...)
· Entretenimento (músicas, vídeos, jogos, compras, etc...)
· Acesso a serviços externos à residência (consultas bancárias, serviços do governo, previsão do tempo, etc.).
· Possibilidades diversas de comunicação (e-mail, salas de debate, bate-papo nos chats, etc..…
· Ajuda no tratamento de doenças como a depressão, aliviando sentimentos de solidão e desamparo;
· Estímulo da atividade intelectual, do raciocínio, da percepção e da atenção;
O Projeto está fundamentado em uma concepção de educação sócio interacionista, sendo uma questão de cidadania disponibilizar recursos computacionais aos idosos durante o período de internação, não permitindo que vivenciem exclusão digital e social mesmo que temporária.
No decorrer da execução das atividades, serão definidas ações como:
- Direcionamento do trabalho com o idoso. Ou seja, seguir em um trabalho seqüencial no uso de uma ferramenta específica, acesso monitorado, pesquisa livre ou dirigida, etc.
- Normas para utilização do espaço destinado à pesquisa.
4.4 Materiais e recursos
O Hospital Santa Clara, do Complexo Hospitalar Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, local de desenvolvimento da pesquisa, disponibilizará, inicialmente, um espaço com quatro computadores (transferidos de outros setores do Hospital) equipados com acesso à Internet, para realização dos encontros, mediações, intervenções e observações dos acadêmicos e pesquisadores junto aos idosos hospitalizados.
A participação da PROCEMPA (Companhia de Processamento de Dados do Município de Porto Alegre) neste projeto oferece a perspectiva de ampliação do equipamento inicial.
Além do hardware disponibilizado pelo hospital, utilizaremos o software Eduquito, Ambiente Virtual de Aprendizagem desenvolvido pelo Núcleo de Informática na Educação Especial (NIEE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Outros softwares utilizados serão: Sistema Operacional Windows, Softwares do pacote Office (Word, Power Point, etc) e navegadores de Internet (Internet Explorer e Google Chrome). Vale ressaltar que a PROCEMPA responsabiliza-se pela instalação dos softwares proprietários.
4.5. PERFIL DO PROFISSIONAL PARA ATUAÇÃO NO PROJETO
1. Equilíbrio emocional;
2. Sensibilidade aguçada;
3. Autonomia para criar e produzir nos diferentes programas, projetos e conteúdos educacionais;
4. Possibilidade de tematizar e refletir crítica e criativamente considerando as TICs como objeto de estudo e reflexão; 5. Capacidade de utilizar as ferramentas em conformidade com a proposta pedagógica que orienta sua prática
Esse Projeto nasce da ampliação e extensão de um estudo já realizado com crianças da oncologia, atendidas pelo SUS, no Hospital da Criança Santo Antonio, no Complexo da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre no período de junho de 2005 à novembro de 2006, cujos resultados evidenciaram melhoria nos aspectos sócio-afetivos dos sujeitos pesquisados.
A pesquisa que produziu uma tese de doutorado e foi desenvolvida por Soares (2007) no Programa de Pós Graduação em Educação da UFRGS, na linha de pesquisa de Informática na Educação.
A partir dos resultados positivos encontrados com as crianças atendidas, se propõe estender a experiência.para atendimento aos idosos hospitalizados. Para tal, pretende iniciar com uma prática pedagógica inovadora, qual seja: iniciar com a formação de recursos humanos da saúde e educação, através de cursos de extensão, propondo com uso das tecnologias da informação e comunicação oportunizar melhor qualidade de vida aos idosos hospitalizados.
Assim, a presente iniciativa tem como objetivo a experimentação de um projeto piloto que venha a contemplar uma parcela considerável de sujeitos, da terceira idade, que sofrem com o desalento da solidão no contexto hospitalar.
Nesse viés, o projeto vem delineando uma nova maneira de integrar parceiros e desenvolver modelos inovadores no atendimento a esses sujeitos, tendo por objetivo, contribuir para combater a info-exclusão e a solidão, visando potencializar a integração deste grupo nas novas redes de conhecimento.
Nessa direção, o projeto em pauta, representa uma iniciativa de parceria e de cooperação entre o Complexo Hospitalar da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre/RS, a Universidade de Brasília, e o ‘Núcleo de Informática na Educação/UFRGS e as demais instituições que vierem a colaborar, tais como: O Ministério Público, o Ministério da Saúde, o Ministério da Educação e Cultura, Secretaria Estadual de Saúde, Prefeitura Municipal, Procempa e etc...
Com o projeto em desenvolvimento, abrem-se caminhos para a formação de recursos humanos que articulem os avanços científicos e tecnológicos às necessidades de oferecer a esses pacientes, uma melhor qualidade de vida, mesmo que seja por curto espaço de tempo.
Essa iniciativa tem sua justificativa alicerçada em múltiplos aspectos:
A hospitalização e o atendimento aos idosos têm sido discutidos por diferentes áreas do conhecimento, na busca de alternativas para oportunizar melhor qualidade de vida a essa parcela de sujeitos que já sofrem discriminação natural, por vezes da família e da sociedade.
Considerável parcela de indivíduos entende que só os jovens têm projetos de vida. Ainda na mesma direção, outros visualizam o velho como um sujeito a margem da sociedade. Ao contrário de tais estigmas, encontra-se a informática, estimulando a sociabilização do idoso. “Não substitui a presença humana, mas é um paliativo para a solidão". (Nanni, 2002).
As tecnologias da informação e comunicação, além de estimular a socialização do idoso, favorece também, o aprendizado da linguagem da informática ajudando a aproximá-lo do seu núcleo familiar uma vez que, para se comunicar com a sociedade informatizada o idoso precisará compreender sua linguagem. Nesse aspecto, enfatiza Kachar (2003, p. 60):
(...) as tecnologias possibilitarão ao indivíduo estar mais integrado em uma comunidade eletrônica ampla; colocando-o em contato com parentes e amigos, num ambiente de troca de idéias e informações, aprendendo junto e reduzindo o isolamento por meio da experiência comunitária.
Hoje, a terceira idade busca cada vez mais acesso aos recursos tecnológicos, principalmente a internet, como passatempo e como forma de manter contato com amigos e parentes. Nesse viés, em recente pesquisa realizada pela companhia de seguros britânica AXA, foi identificado que a Internet está em primeiro lugar nas preferências dos aposentados, inclusive à frente de outras atividades tais como, jardinagens e viagens.
O impacto vivenciado pelo idoso e seus familiares no contexto hospitalar, geram uma sobrecarga de medo, tensão, preocupações e incertezas, passando ambos a vivenciar um período de ansiedade constante que podem ocasionar dificuldades na terapêutica desses pacientes.
Se o atendimento ao idoso hospitalizado for realizado de maneira global as necessidades médicas, de enfermagem e psicológicas, dentre outras abordagens terapêuticas necessárias no ambiente hospitalar, certamente as dificuldades e adversidades serão minimizadas.
Com o avanço da ciência e conseqüente melhoria na saúde e expectativa de vida, os idosos estão se tornando mais ativos, necessitando com isso, ampliar seus horizontes culturais e de aprendizado, visando melhorar sua interação com as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC´s). Esta interação proporciona uma aprendizagem permanente, evitando o risco de estagnação e regressão do conhecimento.
Por outro lado, constatam-se que faltam definições sobre como deve ser realizado este atendimento global nos hospitais, e por quais profissionais. Com freqüência, esse atendimento ocorre por voluntários ou por profissionais não qualificados para esse trabalho, por vezes com formação ampla, mas não específicas às atividades em ambientes de assistência à saúde.
Nessa direção, observam-se lacunas no exercício da cidadania, visto que, em virtude de recorrentes ou extensas hospitalizações, o idoso pode ficar afastado do seu contexto familiar, e por vezes, com uma assistência deficitária dos familiares e amigos.
É próprio do contexto em que vivemos, a falta de tempo para disponibilizar atendimento amplo ao idoso.
O uso das tecnologias da informação e comunicação (TICs) poderá ser um dispositivo exemplar no sentido de manter o idoso participando de um processo dinâmico , e essa participação poderá trazer alento a solidão da permanência no hospital, e ao medo do ficar afastado dos familiares e amigos.
Se for oportunizado ao paciente durante o período de permanência no hospital, uma assistência adequada que busque contemplar o seu nível de desenvolvimento cognitivo, psicológico e social, utilizando um conjunto de recursos de proteção e cuidados, esse período poderá ser menos assustador, não remetendo-lhe apenas à situações de sofrimento, medo, tensão e dor.
Entende-se que a assistência ao idoso hospitalizado não deve ser restrita apenas a parte terapêutica, mas sim, proporcionar ao mesmo um atendimento como um todo, ou seja, levando em conta suas necessidades individuais, na busca de uma proteção contra os danos e prejuízos que o afastamento familiar pode lhe ocasionar, como, por exemplo, a depressão.
Os sintomas de depressão são mais comuns em adultos mais velhos que em adultos mais jovens. Muitas pessoas de mais idade sofrem de dores ou enfermidades crônicas, perderam o cônjuge, irmão, amigos, e, às vezes, os filhos, tomam remédios que alteram o humor e sentem que não tem comtrole sobre a sua vida. Qualquer uma dessas condições pode tornar a pessoa deprimida. Estima-se que a a % dos idosos que vivem na comunidade, e uma porcentagem muito maior daqueles em hospitais e clínicas de repouso, mostram sinais de depressão. (PAPALIA; OLDS, 2000, p. 510)
Daí porque, se deduz que a assistência pode ser também proposta através de dispositivos que oportunizem situações alegres, descontraídas e leves, bem ao agrado individual do idoso e de acordo com seus objetivos e interesses.
Cada sujeito irá propor o que deseja construir. O profissional da educação poderá utilizando o computador como dispositivo básico oportunizar atividades na forma de ludoterapia, que ofereça um conforto psico-afetivo, através das (TICs} buscando sempre oferecer situações que levem a uma melhor qualidade de vida.
Nem sempre os idosos atendidos terão retorno à família. Alguns terão no hospital a etapa final de sua vida. Não obstante, mesmo que seja por tempo limitado, as interações poderão propiciar-lhes alívio de suas tensões, medos e isolamentos. Nesse viés, conforme CECCIM & FONSECA, 1999, “entre as necessidades não afetas à terapêutica, as necessidades educativas especiais são as mais desatendidas”.
Não se obtém saúde somente lutando contra a doença, mas sim ampliando-se as prioridades [ . . . ] desenvolvendo programas de saúde e ensino que estimulem os profissionais da área a assumir uma visão mais real, social e coerente com as necessidades da população. (ANGERAMI–CAMON, 2001, p. 24)
Assim, busca-se oportunizar ferramentas tecnológicas ao idoso, através de ambientes virtuais, os quais poderão proporcionar conexão com seu contexto social, mantendo uma interatividade que minimize os aspectos de exclusão temporária durante sua permanência no âmbito hospitalar.
Segundo Ferreira (2004),
(...) o final do século XX e início do século XXI, vem sendo marcado por um desenvolvimento tecnológico, principalmente no que se refere a computação. Vivemos em um mundo de rápidas transformações, exigindo cada vez mais que o indivíduo possa acompanhá-las, sendo capaz de se comunicar, argumentar, agir, compreender, criticar e,adquirir um aprendizado contínuo”.
Nesse sentido os AVA tem um papel importante na educação quando o objetivo inclui a melhoria da qualidade de vida, propiciando o desenvolvimento da criatividade, atuação ativa e crítica, motivação, curiosidade e melhor auto estima.
De acordo com Godinho (1999),
(...) a utilização do computador e o acesso à Internet abrem a possibilidade aos pacientes hospitalizados se apropriarem de um conjunto imenso de fontes de informação, estabelecerem contatos e trocarem informações, exercerem uma atividade, encontrarem formas alternativas de lazer e de divertimento, aumentarem as suas relações de amizade, em suma, constituírem uma vida com significado”
Em conseqüência, esse trabalho, poderá oportunizar maiores ganhos no período de hospitalização, minimizando os prejuízos e perdas nos aspectos físicos, afetivos, cognitivos e sociais, e ainda, agilizando a trajetória de recuperação e retorno a família e às atividades sociais.
Utilizando o computador e trabalhando individualmente ou em grupo, com os dispositivos que o mesmo oferece, poder-se-á encontrar maior diversidade de alternativas na busca de uma melhor qualidade de vida dos pacientes hospitalizados.
Por que tantos idosos querem aprender a utilizar o computador? Alguns são simplesmente curiosos, ou precisam adquirir novas habilidades de trabalho ou se atualizar. Outros querem acompanhar as tecnologias mais recentes: comunicar-se com crianças e netos que usam computadores ou com adultos que estão na Internet. (PAPALIA; OLDS, 2000, p. 519)
Adultos idosos beneficiam-se na utilização das TICs, adultos idosos hospitalizados beneficiam-se mais ainda, na medida em que tais tecnologias podem lhes aproximar do mundo e das pessoas das quais estão temporariamente afastados.
A partir de um trabalho que propicie atividades ao idoso utilizando ferramentas /virtuais que integrem sujeito e objeto, numa abordagem interacionista, espera-se alcançar resultados positivos.
As Universidades e Organizações não governamentais – ONGs, Secretarias de Educação e Saúde, Estaduais e Municipais estão trabalhando em um desafio permanente para inclusão desse novo campo que os AVA oferecem. Os idosos não deverão ficar na contra mão dessa dinâmica de trabalho já oferecida em vários segmentos da sociedade.
2.1 Teoria Sócio Histórica
Inspirado nos princípios do materialismo dialético, Vygotsky considerou o desenvolvimento da estrutura humana como um processo de apropriação pelo homem da experiência sócio-histórica. Segundo o autor (1984),
(...) organismo e meio exercem influência recíproca, portanto o biológico e o social não estão dissociados e o homem constitui-se como tal através de suas interações sociais, portanto é visto como alguém que transforma e é transformado nas relações produzidas em uma determinada cultura.
Vigotsky procurou construir uma nova psicologia, com o objetivo de integrar, numa mesma perspectiva, o homem enquanto corpo e mente, enquanto ser biológico e social, enquanto membro da espécie humana e participante de um processo histórico (OLIVEIRA, M.K., 1997). Preocupou-se com o estudo da gênese, formação e evolução dos processos psíquicos superiores do ser humano.
O que ocorre não é o somatório entre fatores inatos e adquiridos e sim uma interação dialética que se dá desde o nascimento, entre o ser humano e o meio social e cultural que se insere. (REGO, 1997, p. 93)
Portanto: A atividade mental é exclusivamente humana. É o resultado da aprendizagem social, da interiorização de signos sociais e da interiorização da cultura e das relações sociais. “O desenvolvimento mental é, um processo sócio-genético” (BAIN,1983, BLANCK, 1977, apud MOLL, 1996, p. 43).
A essência do comportamento humano reside em sua mediação por instrumentos e símbolos. “Os instrumentos orientam-se para fora, em direção à transformação da realidade física e social. Os símbolos são orientados para dentro, em direção à auto regulação da própria conduta” (MOLL, 1996, p. 44).
O desenvolvimento humano é visto a partir de três aspectos: instrumental, cultural e histórico. E é Luria que nos ajuda a compreendê-los.
- Aspecto instrumental refere-se à natureza basicamente mediadora das funções psicológicas complexas. Não apenas responde aos estímulos apresentados no ambiente, mas os alteramos e usamos suas modificações como um instrumento de nosso comportamento.
- Aspecto cultural da teoria envolve os meios socialmente estruturados pelos quais a sociedade organiza os tipos de tarefa que a criança em crescimento enfrenta e os tipos de instrumentos tanto mentais como físicos, de que a criança dispõe para dominar aquelas tarefas. Um dos instrumentos básicos criados pela humanidade é a linguagem o que Vygotsky dá ênfase em toda sua obra, à linguagem e sua relação com o pensamento.
- O aspecto histórico, como afirma Luria, funde-se com o cultural, pois os instrumentos que o homem usa, para dominar seu ambiente e seu próprio comportamento, foram criados e modificados ao longo da história social da civilização. Os instrumentos culturais expandiram os poderes do homem e estruturaram seu pensamento, de maneira que, se não tivéssemos desenvolvido a linguagem escrita e a aritmética, não possuiríamos hoje a organização dos processos superiores que possuímos. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001, p. 107)
Para Vygotsky, a história da sociedade e o desenvolvimento do homem caminham juntos e estão de tal forma intrincados que um não seria o que é sem o outro, e foi nessa perspectiva que foi estudado o desenvolvimento humano.
Tentando sintetizar os aspectos centrais da Teoria Sócio–interacionista podemos ressaltar algumas teses básicas de grande complexidade.
Referem-se ao caráter histórico e social dos Processos Psicológicos Superiores (PPS) ao papel que os instrumentos de mediação protagonizam em sua execução e num plano metodológico, à necessidade de um enfoque genético em Psicologia. Essa nova abordagem para a Psicologia pode ser considerada como os ”pilares“ básicos do pensamento de Vygotsky.
Conforme Baquero, as teses centrais são:
A tese de que os Processos Psicológicos Superiores (PPS) têm uma origem histórica e social.
A tese de que os instrumentos de mediação (ferramentas e signos) cumprem um papel central na constituição de tais PPS.
A tese de que se devem abordar os PPS, segundo os processos de sua constituição, quer dizer, a partir de uma perspectiva genética. (BAQUERO, 2001, p. 25)
Os Processos Psicológicos Superiores (PPS), se originam na vida social, na participação do sujeito em atividades compartilhadas com outros. Ou seja, o desenvolvimento mental humano não é dado a priori, não é imutável e universal, não é passivo, nem tão pouco independente do desenvolvimento histórico e das formas sociais da vida humana.
A cultura é parte constitutiva da natureza humana e as características psicológicas se dão através da internalização dos modos historicamente determinados e culturalmente organizados de operar com informações.
O estudo dos processos psicológicos à luz da abordagem sócio histórica permitiu a definição de diversas linhas de pesquisa, tais como:
Estudo do desenvolvimento de uma criança, de um grupo cultural e da dissolução de processos psicológicos, uma vez que as doenças e traumatismos desfazem aquilo que a evolução e a experiência cultural ajudaram a construir. (REGO, 1997, p. 40).
Vygotsky se dedicou ao estudo das chamadas funções psicológicas superiores, que consistem no modo de funcionamento psicológico tipicamente humano, tais como a capacidade de planejamento, memória voluntária, imaginação, etc. Esses processos mentais são considerados superiores, porque referem-se a mecanismos intencionais, ações conscientemente controladas, processos voluntários que dão ao indivíduo a possibilidade de independência em relação às características do momento e espaço presente.
Estes processos não são inatos e se originam nas relações entre indivíduos humanos e se desenvolvem ao longo do processo de internalização de formas culturais de comportamento. “Diferem dos processos psicológicos elementares, como reações automáticas, ações reflexas e associações simples, que são de origem biológica” (REGO, 1997, p. 39).
Nessa direção, o desenvolvimento humano é concebido, como um processo culturalmente organizado. “A aprendizagem em contextos de ensino será um momento interno e necessário. Os Processos Psicológicos Superiores (PPS) são especificamente humanos enquanto histórica e socialmente constituídos” (BAQUERO, 2001, p. 26). É o resultado da aprendizagem social, da interiorização de signos sociais, interiorização da cultura e das relações sociais.
Para Vygotsky, as funções psicológicas emergem e se consolidam no plano da ação entre pessoas e tornam-se internalizadas, isto é, transformam-se para constituir o funcionamento interno que não pré existe, mas é constituído por este processo, fundado nas ações, nas interações sociais e na linguagem. (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2001)
Segundo a teoria defendida por Vigotsky o indivíduo se constitui não somente devido aos processos de maturação orgânica, mas principalmente através de suas interações sociais, a partir das trocas estabelecidas com seus semelhantes.
A interação social fornece a matéria-prima para o desenvolvimento psicológico do indivíduo. A cultura não é vista como algo pronto, um sistema estático ao qual o indivíduo se submete, mas como uma espécie de “palco de negociações” em que seus membros estão num constante movimento de recriação e re-interpretação de informações, conceitos e significados.
As funções psíquicas humanas estão intimamente vinculadas ao aprendizado, à apropriação do legado cultural de seu grupo. Esse patrimônio, material e simbólico, onsiste no conjunto de valores, conhecimentos, sistemas de representação, construtos materiais, técnicas, formas de pensar e de se comportar que a humanidade construiu ao longo de sua história. (REGO, 1997, p. 109)
Para que os sujeitos possam dominar esses conhecimentos é de fundamental importância à mediação do indivíduo, sobretudo dos mais experientes de seu grupo cultural e para que exista apropriação é preciso também que exista internalização, que implica na transformação dos processos externos em um processo intra-psicológico.
Nesta concepção, o desenvolvimento humano segue a direção do social para o individual. Construir conhecimentos implica numa ação partilhada, pois é através dos outros que as relações entre sujeito e objeto de conhecimento são estabelecidas.
A atividade espontânea e individual dp homem, apesar de importante, não é suficiente para apropriação dos conhecimentos acumulados pela humanidade. É importante a intervenção do adulto e as trocas realizadas que também contribuem para os desenvolvimentos individuais (OLIVEIRA, M.K., 1997).
A heterogeneidade passa a ser vista como fator imprescindível para as interações. Os diferentes ritmos, comportamentos, experiências, trajetórias pessoais, contextos familiares, valores e níveis de conhecimentos de cada sujeito imprimem a possibilidade de trocas de repertórios, de visão de mundo, de confrontos, ajuda mútua e conseqüente ampliação das capacidades individuais.
Há forte ligação entre o processo de desenvolvimento e a relação do indivíduo com seu ambiente sócio-cultural e com sua situação de organismo que não se desenvolve plenamente sem o suporte de outros indivíduos de sua espécie. (OLIVEIRA, M.K., 1997, p. 61)
Segundo Ratner (1995), um princípio fundamental da Psicologia defendida por Vygotsky é a transição dos processos inferiores a funções superiores. Os processos psico-biológicos inferiores incluem os reflexos e os processos conscientes espontâneas e rudimentares. As funções psicológicas conscientes superiores, incluem as funções mentais desenvolvidas e voluntárias, a percepção de categorias, a atenção e os movimentos voluntários.
Conforme Vygotsky (1988), todas as funções mentais superiores – FMS – são processos mediados e surgem de formas coletivas de conduta.
A interação entre o sujeito e o ambiente se dá através do uso de dois tipos de elementos mediadores, os instrumentos e os signos. O instrumento é um elemento interposto entre o trabalhador e o objeto de seu trabalho, ampliando as possibilidades de transformação da natureza. Ex.: o machado corta mais e melhor que a mão humana. O instrumento tem sempre claro um objetivo, carregando a função para o qual foi criado. É, pois, um objeto social e mediador da relação entre o indivíduo e o mundo.
(...) a função do instrumento é servir como um condutor da influência humana sobre o objeto da atividade; ele é orientado externamente, deve necessariamente levar a mudança nos objetos. Constitui um meio pelo qual a atividade humana externa é dirigida para o controle e domínio da natureza. (VYGOTSKY, 1984, p. 62)
Signos podem ser definidos como elementos que representam ou expressam outros objetos, eventos, situações. Ao longo de sua história, o homem tem utilizado signos como instrumentos psicológicos em diversas direções. È uma marca externa que auxilia o homem em tarefas que exigem memória ou atenção. Ex.: a utilização de varetas ou pedras para registro e controle da contagem de cabeças de gado.
São interpretáveis como representação da realidade e podem referir-se a elementos ausentes do espaço e do tempo presentes. “Constantemente recorremos à mediação de vários tipos de signos para melhorar nossas possibilidades de armazenamento de informações e de controle da ação psicológica [ . . . ]“ (OLIVEIRA, M.K., 1997, p. 30-31).
Os signos são elementos mediadores internos, meios auxiliares para solucionar um dado problema psicológico (ex..: lembrar, comparar, relatar, escolher, etc.) (VYGOTSKY, 1998).
Vygotsky nos remete à criação e ao uso de instrumentos e de signos externos como mediadores da atividade humana. É o grupo cultural onde o indivíduo se desenvolve que lhe fornece formas de perceber e organizar o real, as quais vão constituir os instrumentos psicológicos que fazem a mediação entre o indivíduo e o mundo. A dimensão sócio-cultural do desenvolvimento humano não se refere apenas a um amplo cenário, um pano de fundo onde se desenrola a vida individual.
Quando Vygotsky fala em cultura não está se reportando apenas a fatores como país onde o indivíduo vive, seu nível sócio-econômico, a profissão de seus pais, está falando sim, “do grupo cultural como fornecendo ao indivíduo um ambiente estruturado, onde todos os elementos são carregados de significado” (OLIVEIRA, M.K., 1997, p. 37).
A interação desempenha um papel fundamental na construção do ser humano. É através dessa relação interpessoal que o sujeito vai chegar a interiorizar as formas culturalmente estabelecidas de funcionamento psicológico.
O processo pelo qual o indivíduo internaliza a matéria prima fornecida pela cultura não é um processo de absorção passiva, mas de transformação, de síntese. É como se ao longo de seu desenvolvimento, o indivíduo assumisse as formas de comportamento fornecidas pela cultura, num processo em que as atividades externas e as funções inter-pessoais transformam-se em atividades internas, intra-psicológicas.
Muitos dos principais conceitos da psicologia Vigotskiana, como a mediação, a prática e a atividade, ou a natureza histórica dos processos psicológicos superiores foram adaptados de idéias previamente desenvolvidas por Marx e Engels.
Para Vygotsky,
(...) os determinantes da evolução psíquica do homem não são nem a maturação biológica, nem a adaptação biológica, nem a assimilação por parte dos homens das idéias do espírito universal, encarnadas nas criações da cultura, nem tão pouco as relações de cooperação social, mas o trabalho do homem com a ajuda de instrumentos. (LEONTIEV, 1992, apud BAQUERO, 2001, p. 35)
A essência do comportamento humano reside em sua mediação por instrumentos e símbolos. A relação do homem com o mundo não é uma relação direta, pois é mediada por meios, que se constituem nas “ferramentas auxiliares” da atividade humana. A capacidade de cria-las é exclusivamente da espécie humana.
(...) pressuposto da mediação é fundamental na perspectiva sócio-histórica, porque é através dos instrumentos e signos que os processos de funcionamento psicológico são fornecidos pela cultura. Vygotsky confere à linguagem um papel de destaque no processo de pensamentos. (REGO, 1997, p. 42-43).
As características do funcionamento psicológico tipicamente humano não são transmitidas por hereditariedade, nem são adquiridas passivamente pela pressão do ambiente externo. Elas são construídas ao longo da vida do indivíduo, através de um processo de interação do homem e seu meio físico e social, que possibilita a apropriação da cultura elaborada pelas gerações precedentes. Como afirmou Leontiev:
Cada indivíduo aprende a ser um homem. O que a natureza lhe dá quando nasce não lhe basta para viver em sociedade [ . . . ] ainda preciso adquirir o que foi alcançado no decurso do desenvolvimento histórico da sociedade humana. (LEONTIEV, 1978, apud BAQUERO, 2001, p. 35)
Vygotsky atribui enorme importância ao papel da interação social no desenvolvimento do ser humano, entende que o desenvolvimento do ser humano depende de um processo de maturação do organismo como um todo. Esta concepção se apóia na idéia de que “(...) a mente contém todos os estágios do futuro desenvolvimento intelectual: eles existem já na sua forma completa, esperando o momento adequado para emergir (...)” (VYGOTSKY, 1984, p. 26).
Smolka e Góes (1993, p. 37) afirmam que “(...) o que parece fundamental nessa interpretação da formação do sujeito é que o movimento de individualização se dá a partir das experiências propiciadas pela cultura.”.
Aquilo que é inato, não é suficiente para produzir o indivíduo humano, na ausência do ambiente social. As características individuais (modo de agir, de pensar, de sentir, valores, conhecimentos, visão do mundo, etc...) dependem da interação do ser humano com o meio físico e social. Para Vygotsky a maturação biológica é um fator secundário no desenvolvimento das formas complexas do comportamento humano, pois essas dependem da interação da criança, sua cultura e atribui especial importância ao fator humano presente no ambiente.
Para se humanizar o indivíduo precisa crescer num ambiente social e interagir com outras pessoas... Através das intervenções constantes dos adultos os processos psicológicos mais complexos começam a se formar.
Nessa ótica, no processo da constituição humana é possível distinguir:
(...) duas linhas qualitativamente diferentes de desenvolvimento, diferindo quanto a sua origem: de um lado, os processos elementares, que são de origem biológica; de outro, as funções psicológicas superiores de origem sócio-cultural. A história do comportamento da criança nasce do entrelaçamento dessas duas linhas. (VYGOTSKY, 1984, p. 52).
A interação que o indivíduo estabelece com o universo social em que se insere é fundamental para a formação do comportamento e do pensamento humano, que se dá a partir de constantes interações com o meio social em que vive, já que as formas psicológicas mais sofisticadas emergem da vida social. Assim, o desenvolvimento do psiquismo humano é sempre mediado pelo outro
.
Por intermédio dessas mediações os membros imaturos da espécie humana vão aos poucos se apropriando dos modos de funcionamento psicológico do comportamento e da cultura, enfim do patrimônio da história da humanidade e de seu grupo cultural.
Desse modo, a atividade que antes precisou ser mediada, passou a constituir-se um processo voluntário e independente.
Ao internalizar as experiências fornecidas pela cultura, a criança constrói individualmente os modos de ação realizados externamente e aprende a organizar os próprios processos mentais. O indivíduo deixa de se basear em signos externos e começa a se apoiar em recursos internalizados (imagens, representações mentais, conceitos, etc...). (REGO, 1997, p. 62)
O desenvolvimento humano é compreendido não como a decorrência de fatores isolados que amadurecem, nem tão pouco de fatores ambientais que agem sobre o organismo controlando seu comportamento, mas sim, através de trocas recíprocas, que se estabelecem durante toda a vida, entre indivíduo e meio, cada aspecto influindo sobre o outro.
As origens da vida consciente e do pensamento abstrato deveriam ser procuradas na interação do organismo com as condições de vida social e nas formas sócio-históricas de vida da espécie humana. Sendo, portanto, necessário analisar o reflexo do mundo exterior no mundo interior dos indivíduos a partir da interação destes com a realidade.
O referencial sócio-histórico enfatiza a construção do conhecimento como uma interação mediada por várias relações. Na troca com outros sujeitos e consigo próprio vão se internalizando os conhecimentos, papéis e funções sociais, o que permite a constituição de conhecimentos e da própria consciência.
Conforme Wertsch (1991, apud BAQUERO, 2001, p. 42), “[ . . . ] as pesquisas concretas desenvolvidas por Vygotsky e seus discípulos se centraram fundamentalmente nos aspectos inter-psicológicos que dão lugar à formação de processos mediados.”
Nesse direcionamento os aspectos históricos, sociais e institucionais, cumprem um papel decisivo no surgimento dos instrumentos de mediação e na promoção de cenários concretos para o desenvolvimento de atividades inter-psicológicas.
A relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas é uma relação mediada sendo os sistemas simbólicos os elementos intermediários entre o sujeito e o mundo. São os instrumentos técnicos e os sistemas de signos, construídos historicamente, que fazem a mediação dos seres humanos entre si e deles com o mundo.
A mediação é um processo essencial para tornar possíveis processos ou funções psicológicas tipicamente humanas, ou seja, voluntárias intencionais, controladas pelo próprio sujeito.
O pressuposto da mediação é fundamental na perspectiva sócio histórica, porque é através dos instrumentos e signos que os processos de funcionamento psicológico são fornecidos pela cultura.
Vygotsky confere à linguagem um papel de destaque no processo de pensamentos (REGO, 1997). A linguagem é um signo mediador por excelência, pois carrega em si os conceitos generalizados e elaborados pela cultura humana.
2.2 A afetividade no processo de aprendizagem
Pode-se comparar a afetividade a um óculos através do qual vê-se o mundo. São esses hipotéticos óculos que mostram nossas realidades maiores ou menores do que são, mais coloridas ou mais cinzentas, mais distorcidas ou fora de foco. (SOARES, 2007, p. 84)
A metodologia proposta terá embasamento teórico em Vygotsky que afirma: “é imprescindível não esquecer as conexões inerentes entre os aspectos intelectuais e afetivos.” As atividades deverão ser flexíveis de acordo com o nível de desenvolvimento de cada sujeito, e suas características particulares.
A teoria de Vygotsky interpreta o funcionamento psicológico humano observando aspectos não apenas cognitivos, mas também afetivos, uma vez que o autor concebe o homem como um ser que pensa, raciocina, deduz e abstrai, mas também como alguém que sente, se emociona, deseja, imagina e se sensibiliza (REGO, 1997).
Para entender o sujeito em sua totalidade e complexidade, faz-se necessária uma interpretação que não separe os aspectos que concernem ao seu funcionamento psicológico. Logo, cognição não existe apartada da afetividade, pois esses são aspectos que se complementam no desenvolvimento dos seres humanos.
De acordo com Oliveira (1992), Vygotsky definiu como “funções mentais” processos como pensamento, memória, percepção e atenção, categorizando-as como funções mentais elementares (atenção involuntária, por exemplo) e funções mentais superiores (atenção voluntária, memória, lógica...). Portanto, não é possível compreender tais funções isoladamente, de maneira que sua essência mesma é estarem inter-relacionadas.
Sendo assim, pode-se afirmar que, de acordo com a teoria de Vygotsky, o desenvolvimento das funções mentais como afeto e intelecto, como parte da consciência humana, apresenta relação de interfuncionalidade. Oliveira (1992, p.76) ressalta que “(...) os processos pelos quais o afeto e o intelecto se desenvolvem estão inteiramente enraizados em sua inter-relações e influências mútuas" (OLIVEIRA, 1992, p. 76).
Entende-se, portanto, que os aspectos cognitivo e afetivo não são dimensões passíveis de serem analisadas ou mesmo desenvolvidas isoladamente. “(...) o pensamento tem sua origem na esfera das motivações, a qual inclui inclinações, necessidades, interesses, impulsos, afeto e emoção” (OLIVEIRA, 1992, p. 76).
Nesse sentido, a inclusão digital dos idosos em situação de internação hospitalar, por meio da utilização de ambientes virtuais de aprendizagem, está embasada na teoria sócio-afetiva de Vygostsky, uma vez que a mesma permite o entendimento do sujeito em sua complexidade, considerando a inter-relação de suas dimensões afetivas e cognitivas.
Conforme Santarosa (2001, p.7) “o ambiente de aprendizagem computacional deve constituir-se, fundamentalmente, de um espaço aberto à construção do conhecimento, à construção cognitiva, sócio-afetiva, da comunicação, entre outros.”
Não apenas a utilização dos AVA, mas também a própria Internet permite o desenvolvimento de todas as dimensões do ser humano (SANTAROSA, 2001).
No projeto em questão, que prevê a interação entre idosos hospitalizados e o AVA, analisaremos os processos de interação e promoveremos novas atividades baseados nos aspectos da teoria de Vygotsky voltados para o desenvolvimento sócio-afetivo.
Dá embasamento ao trabalho, também, o estudo desenvolvido por Soares (2007), relacionado à utilização de Ambientes Virtuais de Aprendizagem com crianças em situação de internação hospitalar.
Embora o estudo de Soares (2007) seja relacionado, especificamente, a crianças em situação de internação hospitalar e o estudo em questão esteja voltado para idosos hospitalizados, pode-se evidenciar questões que, mesmo relacionadas a faixas etárias absolutamente distintas, referem-se ao contexto da enfermidade, e interferem emocionalmente em ambas as categorias de sujeitos.
De acordo com Ajuriaguerra (apud SOARES, 2007) o tipo de relação que a criança [e, para entendimento do estudo em questão, o idoso enfermo] estabelece com o meio dependerá de variadas situações relacionadas à enfermidade, como as características da doença e o entorno social (família, local de tratamento, etc).
De acordo com a autora, a afetividade ocupa importante papel nos processos de aprendizagem e desenvolvimento humano, e afirma que “Estudos mostraram que a emoção integra os processos de raciocínio e decisão, seja isso bom ou mau.” (SOARES, 2007, p. 81)
Como resultado deste estudo, foram categorizados aspectos sócio-afetivos relacionados à aprendizagem em três categorias: Condutas Gerais, Auto-Estima e Estados Involuntários.
Tais resultados relacionados à afetividade foram evidenciados em decorrência do estudo de Soares. A despeito da dificuldade na qual podemos esbarrar no que concerne a observar, avaliar e qualificar as emoções alheias, a autora evidencia:
Ninguém pode observar os sentimentos que um outro vivencia, mas alguns aspectos das emoções que originam estes sentimentos serão patentemente observáveis por outras pessoas. (Damásio apud SOARES, 2007, p. 82)
Os aspectos sócio-afetivos que se enquadram em cada uma das categorias definidas por Soares derivam de fenômenos corporais e mentais que geram uma atuação no mundo, sejam eles auto-controlados ou não.
Condutas Gerais
Motivação
Desmotivação
Iniciativa
Dependência
Bom Humor
Mau Humor
Aspectos da Auto-estima
Positiva Aparência
Negativa Aparência
Positiva Conhecimento
Negativa Conhecimento
Positiva Social
Negativa Social
Estados Involuntários
Euforia
Apatia
Desembaraço
Timidez
Disposição Física
Debilidade Física
Tabela 1 – Quadro dos aspectos sócio-afetivos segundo Soares (2007)
2.2.1 Aspectos das condutas gerais
Aspectos das condutas gerais são aqueles em que os sujeitos têm a possibilidade de conduzir sua atenção em maior ou menor grau, ainda que de forma restrita. São eles:
Motivação: pontuado quando o sujeito apresenta motivo espontâneo para o desempenho de uma atividade, utilização de dispositvos ou realização de um processo;
Desmotivação: pontuado quando o sujeito apresenta ausência de motivos espontâneos para o desempenho de uma atividade, utilização de dispositvos ou realização de um processo;
Iniciativa: o sujeito dispensa auxilio do facilitador e se autodetermina para atingir seus objetivos;
Dependência: o sujeito necessita de suporte do facilitador ou outrem, para atingir seus objetivos;
Bom Humor: Reação bem humorada e graciosa frente situações vivenciadas durante a interação;
Mau humor: Expressão de descontentamento, por meio de linguagem social ou corporal, frente situação apresentada;
2.2.2 Aspectos da auto-estima
[...] a avaliação que o indivíduo faz, e que habitualmete mantém, em relação a si mesmo, expressa uma atitude de aprovação ou desaprovação e indica o grau em que o indivíduo se considera capaz, importante e valioso. Em suma, a auto-estima é um juízo de valor que se expressa mediante as atitudes que o indivíduo mantém em face de si mesmo. É uma experiência subjetiva que o indivíduo expõe aos outros por relatos verbais e expressões públicas de comportamento. (COOPERSMITH, 1967, p. 4-5)
Auto-Estima (Aparência): identifica-se este aspecto com relação ao sujeito aceitar e gostar de sua imagem, expressando contentamento;
Baixa Auto-Estima (Aparência): relaciona-se ao descontentamento que o sujeito apresenta com relação à sua aparência, julgando-se feio ou pouco atraente;
Auto-Estima (Conhecimento): relaciona-se à confiança apresentada pelo sujeito com relação à sua capacidade e conhecimento no desempenho de determinada tarefa;
Baixa Auto-Estima (Conhecimento): expressa-se quendo o sujeito julga-se incapaz de desempenhar determinada tarefa, por entender que não tem conhecimento suficiente sobre o assunto em questão;
Auto-Estima (Social): quando o sujeito julga-se ao nível dos demais em um grupo, ou mesmo, quando julga-se superior;
Baixa Auto-Estima (Social): quando o sujeito julga-se inferior aos demais participantes de um grupo, e com isso, omite-se.
2.2.3 Aspectos dos Estados Involuntários
São caracterizados como aspectos dos estados Involuntários aqueles sobre os quais o sujeito não apresenta controle, não podendo suspender a aparição dos mesmos, ou ainda interferir nos mesmos.
Euforia: pode ser pontuada apenas quando os sujeitos expressam incredulidade, de acordo com a importância do evento, irrompendo em risos. Outras situações envolvendo a euforia apresentam-se muito subjetivas, dificultando assim sua pontuação;
Apatia: demonstração de falta de energia, de maneira que a debilidade não permite ao sujeito expressar-se;
Desembaraço: ausência de inibição, comentários feitos de temas (mesmo pessoais), com naturalidade;
Timidez: acanhamento ou retração corporal em interação com facilitadores ou demais sujeitos do grupo;
Disposição Física: demonstração de disposição e energia para desempenho das atividades, junto aos dispositivos tecnológicos;
Debilidade Física: demonstração de enfraquecimento, prostração ou desânimo.
2.3. A teoria Sócio Histórica aplicada à inclusão digital do idoso hospitalizado
O idoso hospitalizada deve receber um atendimento que propicie o seu bem estar numa abordagem de assistência humanizada, evitando os sentimentos de solidão, pela oferta de situações de encorajamento que poderão ser desencadeadas pelo uso das TICs.
Espera-se, favorecer as dimensões sócio afetivas, pois é pela aprendizagem, na relação com os outros que os conhecimentos são construídos e até que a interiorização ocorra, o sujeito deve ser acompanhado por um mediador.
As TICs podem ser consideradas dispositivos de fácil acesso e custo reduzido com possibilidades de oportunizar aos pacientes idosos hospitalizados momentos de alegria, satisfação, autonomia, melhor auto estima, enfim momentos lúdicos que poderão diminuir os aspectos negativos que possam estar vivenciando.
No contexto hospitalar a possibilidade de atividades cooperativas, a busca de amigos virtuais, as pesquisas na Web, os jogos, os e-mails, enfim, as possibilidades disponíveis no mundo virtual, poderão viabilizar momentos prazerosos mesmo na fase em que o idoso está no isolamento de um quarto…
Busca-se disponibilizar ambientes colaborativos num trabalho cooperativo, atendendo os interesses e condições individuais, contribuindo para estabilizar, modificar ou reequilibrar a construção do conhecimento e uma melhor qualidade de vida no período de internação hospitalar do idoso.
Segundo Santarosa (1987), o uso das TICs ajudam a melhorar a auto-estima, a aumentar a motivação e o interesse de aprender coisas novas. Valente, (1991), já pontua que o computador pode ajudar a desenvolver habilidades importantes e essas habilidades têm provocado um impacto muito grande na vida dos sujeitos, enriquecendo sua capacidade intelectual, seu sentido de auto-estima e colocando-os em contato com sua capacidade de aprender e de se desenvolver cognitiva e emocionalmente.
Além disso, o computador hoje tomou proporção de objeto de consumo, sendo considerado poderoso meio, e ser seu proprietário ou fazer uso dele, “(...) significa ter a sensação que a potencia do computador se transfira para nós e nos pertença” (PELUSO, 1998, p. 155). O mesmo acontece quando, “adquirimos um carro, uma moto: a aquisição desta ou daquela marca, guiado pelos nossos profundos desejos e pelos estereótipos sócio-culturais” (PELUSO, 1998, p. 155)
Ainda temos uma trajetória longa a percorrer na experimentação e implantação das TICs na assistência ao idoso no contexto hospitalar, entretanto. se sabe que pesquisas já apontam para ganhos nessa direção.
As atividades de lazer e entretenimento para o idoso hospitalizado constituem o principal instrumento de atenção à saúde social entendendo que qualidade de vida é viver bem no ambiente em que nos encontramos, nos adaptando e procurando ter hábitos saudáveis. Cada pessoa deve encontrar o que é qualidade de vida para si.
No mundo contemporâneo, as TICs e em especial o computador, têm evidenciado destaque como um dos mais promissores recursos para aproximar pessoas e desenvolver o potencial cognitivo dos seres humanos.
A partir do uso destes dispositivos, “uma nova visão de mundo” passou a ser oportunizada às sociedades: com as novas possibilidades de comunicação.
Hoje povos de diferentes culturas e níveis sócio-econômicos podem ampliar gigantescamente seus conhecimentos, até então cerceados por barreiras geográficas.
A Internet e todas as tecnologias correlatas romperam as barreiras culturais e sociais existentes difundindo uma nova proposta de conhecimento e percepção de mundo.
Os usos digitais permitem o acesso à informação atualizada, o acesso às pesquisas e aos conhecimentos produzidos por cientistas de qualquer parte do planeta, num espaço de tempo cada vez mais reduzido, e ainda permite estabelecer uma conversação/comunicação sincrônica (chat) com pessoas dispersas geograficamente.
A grandeza da informática não está na capacidade que ela tem de aumentar o poder centralizado nem na sua força para isolar as pessoas em torno da máquina. [ . . . ] A grandeza da informática encontra-se no imenso campo que abre à cooperação. É uma porta para a amizade, para a criação de atividades cooperativas, para a cumplicidade de críticas solidárias aos governos e os poderes opressores ou injustos. Enfim, as redes informatizadas propiciam a solidariedade e a criação e desenvolvimento de projetos em parcerias. (ALMEIDA; FONSECA JUNIOR, 2000, p. 43)
Segundo Struchiner, Ricciardi e outros (1998), o indivíduo é agente ativo de seu próprio conhecimento, ou seja, ele constrói significados e define suas próprias representações da realidade de acordo com suas experiências e vivências em diferentes contextos.
O surgimento de um novo sistema eletrônico de comunicação caracterizado pelo seu alcance global, integração de todos os meios de comunicação e interatividade potencial está mudando e mudará para sempre nossa cultura (...) está surgindo uma nova cultura: a cultura da virtualidade real. (CASTELLS, 1999, p. 355)
Pelo que as TICs representam e potencializam do ponto de vista da construção do conhecimento é recomendável que os ambientes hospitalares oportunizem aos idosos hospitalizados vivencias virtuais.
As TICs poderão contribuir de maneira diferenciada para oportunizar durante o período de hospitalização melhor qualidade de vida aos pacientes e sua inclusão em todos os segmentos do mundo atual.
Nesta ótica é fundamental reconhecer a individualidade dos pacientes em todos os seus aspectos. As nuances do quadro clínico, a ansiedade e a insegurança a tensão e o medo que a doença traz, as dificuldades econômicas e sociais do tratamento, a importância da presença constante da família e da coesão de toda a equipe do hospital. Esse contexto deve estar harmonizado numa sintonia em que o idoso sinta-se confortável.
Como, atualmente, o Ministério da Saúde preocupa-se na busca de um processo de humanização na assistência hospitalar acredita-se que a incorporação destas tecnologias poderão proporcionar benefícios.
Ainda temos uma trajetória longa a percorrer na experimentação e implantação de trabalhos similares.
Face ao exposto, o presente Projeto tem como objetivos:
3 OBJETIVOS
a) Oportunizar ao idoso hospitalizado interações em ambientes virtuais, buscando sua inclusão digital e social.
b) Acompanhar e avaliar o processo de interação/comunicação do idoso em ambientes virtuais de aprendizagem, observando os aspectos sócioafetivos e cognitivos evidenciados.
c) Verificar a relação entre o uso do computador e das ferramentas da Internet e a avaliação que o idoso faz de sua qualidade de vida e bem estar durante o período de hospitalização e participação no projeto;
4 METODOLOGIA
4.1 Caracterização do estudo
Expressamos que ela [a pesquisa qualitativa] é uma postura importante no campo da pesquisa educacional. (...) a pesquisa educacional nos países de Terceiro Mundo tem um objetivo maior: a de servir aos processos de transformação de essência da realidade social que experimentamos. (TRIVIÑOS, 1987, p. 14)
O projeto envolve um estudo caráter qualitativo, conforme metodologia de estudo de caso proposta por André e Lüdke (1986). Ainda de acordo com a pesquisa qualitativa, baseia-se também no materialismo dialético e histórico conforme metodologia de pesquisa descrita por Triviños (1987). Ambas as teorias complementam-se na realização da pesquisa.
Segundo André e Lüdke (1986), a pesquisa qualitativa apresenta cinco características essenciais: a) ambiente natural como fonte dos dados; b) dados coletados eminentemente descritivos; c) preocupação com o processo maior do que com o produto; d) pesquisador (es) como a principal elemento de coleta de dados; e, e) o significado que as pessoas dão às coisas como principal elemento de construção de saber para o(s) pesquisadores.
Ainda de acordo com André e Lüdke (1986), a pesquisa qualitativa supõe o contato direto e prolongado do pesquisador com o ambiente e a situação que está sendo investigada, via de regra através do trabalho intensivo de campo. Sendo assim, nesse tipo de pesquisa, os problemas devem ser estudados no ambiente em que eles ocorrem naturalmente, sem qualquer manipulação intencional do pesquisador.
Na perspectiva da pesquisa dialética (TRIVIÑOS, 1987), a etapa inicial da pesquisa caracteriza-se pela “contemplação viva do fenômeno” (p. 73), que permite o entendimento da qualidade geral do objeto e das hipóteses que nortearão o estudo. Posteriormente, passa-se à análise do fenômeno, estabelecendo as relações sócio-históricas do mesmo. Finalmente, o pesquisador procura estabelecer a realidade concreta do fenômeno estudado, por meio de estudo das informações, observações e experimentos realizados.
O estudo de caso, (LÜDKE e ANDRÉ, 1986: 18-21) apresenta as seguintes características: (a) enfatiza o contexto da pesquisa para a interpretação do fenômeno; (b) usa uma variedade de instrumentos para coletar os dados de modo de abranger o fenômeno de forma mais profunda; e (c) utiliza uma linguagem mais acessível do que outros relatórios de pesquisa.
Para realização de um estudo de caso, o processo caracteriza-se pelo desenvolvimento de três etapas ou fases: exploratória, delimitação do estudo e análise sistemática para elaboração do relatório.
Na fase exploratória, o estudo passa a ser delineado mais claramente, na medida em que o estudo passa a ser desenvolvido. Questões que podem existir inicialmente, por parte do pesquisador, passam a ser “explicitados, reformulados ou abandonados, na medida em que se mostrem mais ou menos relevantes na situação estudada” (LÜDKE e ANDRÉ, 1986, p. 21).
A fase de delimitação do estudo caracteriza-se pela coleta sistematizada de informações, por parte do pesquisador, com instrumentos variados determinados pelas características próprias do objeto de estudo.
A análise sistemática e a elaboração do relatório, como fase final do estudo de caso, caracterizam-se pela sistematização do material que o pesquisador começou a produzir deste a primeira etapa do estudo, como rascunhos, apontamentos, anotações, fotografias, gravações...
Vale ressaltar que as etapas ou fases descritas no processo do estudo de caso não são necessariamente lineares, mas complementares, cruzando-se em diferentes momentos da pesquisa e em diferentes ordens.
4.2 Sujeitos da pesquisa
A amostra de sujeitos que compõem este estudo é formada por idosos - pessoas com 60 anos de idade ou mais, de acordo com o primeiro artigo do Estatuto do Idoso, 2003 – em situação de internação hospitalar do Hospital Santa Clara, da Complexo Hospitalar Santa Casa de Misericórdia em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Em virtude da natureza do projeto, que visa oportunizar melhor qualidade de vida aos idosos hospitalizados, não será possível definir quais e quantos idosos serão atendidos pelo projeto durante a realização da pesquisa, diante de contingências como rotatividade de internações, alta hospitalar ou mesmo óbito.
4.3 Procedimentos
Os encontros com os sujeitos hospitalizados ocorrerão diariamente, na sede do hospital Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre.
O presente projeto prevê o desenvolvimento de um estudo piloto e, através do acompanhamento durante as interações dos sujeitos idosos hospitalizados, busca avaliar os resultados observados. Se os mesmos forem considerados satisfatórios e relevantes poderão servir de modelo para a ampliação desse atendimento à outros hospitais.
4.3.1 Da implantação do projeto
Sua implantação deverá ocorrer de forma gradual e continuada não devendo acontecer interrupções das atividades, a qual, caso sofra solução de continuidade, poderá gerar desconforto aos pacientes em atendimento.
Inicialmente, faremos uma sondagem por meio de um contato pessoal dos pesquisadores com os idosos hospitalizados no momento da atividade e aplicação de um instrumento de verificação de interesses, bem como dados relevantes da mostra como, idade, escolaridade, estado cível, número de filhos, etc (conforme anexo 1).
Tal atividade de sondagem justifica-se pois é preciso conhecer o universo do idoso, conhecer seus anseios, suas motivações, seus desejos, seus problemas, suas dificuldades, seu dia-a-dia, para que a tecnologia seja um meio para alcançar um objetivo maior. A aprendizagem será facilitada se os próprios idosos definirem os objetivos desejados. Pois os mesmos podem ter motivações diferentes que irão influenciar na definição de seus direcionamentos para aprender a utilizar as TIC’s.
4.3.2 Da coordenação do projeto
O projeto deverá ser coordenado por profissional credenciado. As atividades propostas terão a participação efetiva de pessoal habilitado, voluntários e acadêmicos com a supervisão sistemática de profissional qualificada para tal.
Estão previstas no cronograma reuniões mensais com os profissionais e acadêmicos envolvidos no projeto, para busca de soluções e direcionamento do projeto de acordo com as expectativas dos pacientes.
4.3.3 Da preparação e formação dos acadêmicos e voluntários envolvidos
Pretendemos promover a realização de, pelo menos, um curso de extensão para treinamento dos acadêmicos, voluntários e demais envolvidos no projeto, visto ser necessário que os facilitadores não só compreendam a importância desse instrumental, como também, desenvolvam competências fundamentais para sua utilização. Uma mesma informação poderá se apresentar sob diferentes enfoques, ampliando as possibilidades de aprendizagem para o idoso.
O mediador utilizando adequadamente os ambientes virtuais poderá transportar o idoso a um mundo fantástico. São sites de jogos, músicas, entretenimentos variados, correio eletrônico para o encaminhamento e recebimento de e-mails, navegação da internet, visitação de sites de seu interesse, pesquisa de assuntos de seu agrado, conversas no MSN, organização da sua página, sempre explorando as atividades possíveis.
Neste sentido, o curso de extensão visa não apenas instrumentalizar os acadêmicos e voluntários, mas oferecer um olhar sobre as potencialidades de ferramentas disponibilizadas pelo computador e pela internet na diminuição dos obstáculos enfrentados pelo idoso e na melhoria de sua qualidade de vida.
4.3.4 Da natureza das atividades desenvolvidas
Dentre as diferentes atividades trabalhadas com os idosos, de acordo com os interesses pessoais, todos vivenciarão novas aprendizagens que proporcionarão uma aproximação com o mundo fora do hospital, oportunizando melhor qualidade de vida e ainda, minimizando os aspectos sócio afetivos negativos e fortalecendo os positivos.
Os benefícios proporcionados pela aprendizagem da informática e pelo uso da internet são variados e extensos, senão vejamos:
· Disponibilidade de acesso a:
· cultura e educação (cursos virtuais, bibliotecas virtuais, publicações, jornais, revistas, etc...)
· Entretenimento (músicas, vídeos, jogos, compras, etc...)
· Acesso a serviços externos à residência (consultas bancárias, serviços do governo, previsão do tempo, etc.).
· Possibilidades diversas de comunicação (e-mail, salas de debate, bate-papo nos chats, etc..…
· Ajuda no tratamento de doenças como a depressão, aliviando sentimentos de solidão e desamparo;
· Estímulo da atividade intelectual, do raciocínio, da percepção e da atenção;
O Projeto está fundamentado em uma concepção de educação sócio interacionista, sendo uma questão de cidadania disponibilizar recursos computacionais aos idosos durante o período de internação, não permitindo que vivenciem exclusão digital e social mesmo que temporária.
No decorrer da execução das atividades, serão definidas ações como:
- Direcionamento do trabalho com o idoso. Ou seja, seguir em um trabalho seqüencial no uso de uma ferramenta específica, acesso monitorado, pesquisa livre ou dirigida, etc.
- Normas para utilização do espaço destinado à pesquisa.
4.4 Materiais e recursos
O Hospital Santa Clara, do Complexo Hospitalar Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, local de desenvolvimento da pesquisa, disponibilizará, inicialmente, um espaço com quatro computadores (transferidos de outros setores do Hospital) equipados com acesso à Internet, para realização dos encontros, mediações, intervenções e observações dos acadêmicos e pesquisadores junto aos idosos hospitalizados.
A participação da PROCEMPA (Companhia de Processamento de Dados do Município de Porto Alegre) neste projeto oferece a perspectiva de ampliação do equipamento inicial.
Além do hardware disponibilizado pelo hospital, utilizaremos o software Eduquito, Ambiente Virtual de Aprendizagem desenvolvido pelo Núcleo de Informática na Educação Especial (NIEE) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Outros softwares utilizados serão: Sistema Operacional Windows, Softwares do pacote Office (Word, Power Point, etc) e navegadores de Internet (Internet Explorer e Google Chrome). Vale ressaltar que a PROCEMPA responsabiliza-se pela instalação dos softwares proprietários.
4.5. PERFIL DO PROFISSIONAL PARA ATUAÇÃO NO PROJETO
1. Equilíbrio emocional;
2. Sensibilidade aguçada;
3. Autonomia para criar e produzir nos diferentes programas, projetos e conteúdos educacionais;
4. Possibilidade de tematizar e refletir crítica e criativamente considerando as TICs como objeto de estudo e reflexão; 5. Capacidade de utilizar as ferramentas em conformidade com a proposta pedagógica que orienta sua prática
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